quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O hobbit - A desolação de Smaug

O Hobbit – A Desolação de Smaug (The Hobbit – The Desolation of Smaug)


Direção: Peter Jackson

Ano de produção: 2013

Com: Martin Freeman, Ian McKellen, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Luke Evans, Richard Armitage, Aidan Turner, Lee Pace, Benedict Cumberbatch.

Gênero: Aventura

Classificação Etária: 12 Anos



        Superior ao anterior, “A desolação de Smaug” ainda sofre com a quebra de ritmo

            Quando “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada” estreou no final de 2012, muita gente se decepcionou e a expectativa era altíssima. Primeiro porque era o retorno ao mundo da Terra Média e ao universo consagrado da trilogia “Senhor dos Anéis”. Segundo que a própria direção seria do Peter Jackson, que dirigiu, produziu e escreveu a trilogia, então, logo os fãs poderiam esperar uma coisa de qualidade de quem já conhecia. Uma Jornada Inesperada não é um filme ruim, muito pelo contrário, resgata muito o universo de Tolkien, tem uma parte técnica impecável e é um prelúdio do que viria em “Senhor dos Anéis”.

            O problema é que, se “Senhor dos Anéis” possuía três livros, todos extensos, então era normal que fossem feitos três filmes, também extensos. Mas, “O Hobbit” é um livro único, menor do que qualquer livro da trilogia e Peter Jackson anunciou que faria 3 filmes. Muita gente falou mal, disse que era uma ideia feita para ganhar dinheiro, mas o cineasta prometeu que este Hobbit seria só uma adaptação e que mudaria muita coisa do livro.

        De fato, houve muita firula em Uma Jornada Inesperada. São quase 3 horas com quase metade das cenas desnecessárias. Peter Jackson incluiu muita coisa mais como fã do que como cineasta. E algumas referências de “Senhor dos Anéis”, que não são apresentadas no livro, estão presentes em Uma Jornada Inesperada. Também, “O Hobbit” se passa 60 anos antes dos acontecimentos de “Senhor dos Anéis”.

       Infelizmente (ou felizmente), não dá para fugir das referências e os debates sobre essa nova trilogia são inúteis, já que serão sim 3 filmes e não dá mais para escapar disso.

     Mas, para minha grande surpresa, este novo filme, “A desolação de Smaug” cobre muitas falhas de Uma Jornada Inesperada, é muito mais inteligente, é muito mais atraente do ponto de vista estético e de produção e tem personagens muito melhor desenvolvidos do que o filme anterior. Com quase 3 horas de duração novamente, existe, infelizmente, uma quebra de ritmo. Essa quebra é menos visível e menos incômoda do que em Uma Jornada Inesperada, é fato, mas ela existe.

    Não sou contra se fazer uma trilogia com um livro tão minúsculo, na verdade, sou a favor. Um filme não precisa seguir a risca as palavras de um livro para ser fiel ao seu universo. Com um bom roteiro e bom diretor, uma história pode ser dissertada e ampliada, criando um ponto de vista diferente de uma obra consagrada. Mas, desde que haja uma coerência e inteligência por trás disso. E que de fato seja uma história consolidada e independente do livro. Mas, no filme anterior, a tal da Jornada parece mais dependente da Saga do Anel tendo que, a todo o momento fazer referências e a ação é longa e interminável.

   Já nesse “A desolação de Smaug”, tudo tem a impressão de pertencer ao mesmo universo. Mesmo momentos que não têm no livro (e os fãs insistem em lembrar isso), como a aparição dos Elfos faz todo o sentido por aqui. Na verdade, eles são a melhor coisa do filme. A primeira seqüência deles na floresta, seqüestrando os Hobbits é de arrepiar. Principalmente com a esperada aparição do Elfo Legolas (vivido aqui e lá pelo Orlando Bloom) e da Tauriel (vivida por Evangeline Lilly, a Kate da série “Lost”). Aqui, ela é apresentada como uma mulher forte, que parte para a guerra sem pestanejar, idealista, porém romântica (o filme sugere um possível triângulo amoroso entre Tauriel, Legolas e Kili, que é um Hobbit).

   As seqüências de de ação estão perfeitas, a direção de arte é arrebatadora e Peter Jackson faz, mais uma vez, o bom uso de suas tecnologias, como os 48 quadros por segundo, o CGI e também um excelente uso do 3D. Aqui, a profundidade em 3 dimensões serve como aliada à história, principalmente quando se tem a necessidade de um clima mais sombrio, com destaque para dois momentos: na primeira meia hora de filme, na batalha contra as aranhas gigantes, em que as aracnídeas parecem sempre ameaçar a platéia, com seus ferrões e aspecto assustador. E em outro momento, desta vez na última hora do filme, é chegado o clímax, o momento mais esperado da trilogia: a aparição do dragão Smaug. A conversa dele, com o Bilbo Bolseiro é tão angustiante quanto bem feita. Cada diálogo é uma surpresa. Smaug está sensacional como vilão (e com a voz de Benedict Cumberbatch) e causador dos melhores momentos do filme. Por aqui, além da aparência ameaçadora (fruto de muito CGI e uma voz poderosa), ele parece estar sempre a um passo a mais do que qualquer um. Enquanto Bilbo está invisível pelo efeito do Anel, Smaug sabe tudo sobre ele: sabe o nome, onde mora e sabe sobre os Hobbits. As perseguições do dragão contra o grupo de anões é instigante.

   Por ser um filme de meio de trilogia, era de se esperar que o final não fosse completo. Mas tinha que ser fechado. Por aqui, não só ficou em aberto, como termina em qualquer lugar. Parecia que Peter Jackson achou que já tinha dado o tempo de projeção e encerrou seu filme de forma não só aberta como incompleta. Com o intuito, claro, de preparar um desfecho épico para “A batalha dos 5 exércitos” – que é a 3ª parte da trilogia, prevista para Dezembro de 2014. É esperar para ver. E vida longa a Legolas e Tauriel.

Nota: 8,0


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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carrie - A Estranha

Carrie – A Estranha (Carrie)


Direção: Kimberly Peirce

Ano de produção: 2013

Com: Chloe Grace Moretz, Julianne Moore, Judy Greer, Gabriela Wilde, Portia Doubleday, Ansel Elgort.

Gênero: Terror

Classificação Etária: 16 Anos



O Carrie de 2013 é tudo o que poderia dar de errado no original

            Eu fui muito entusiasmado assistir “Carrie – A Estranha”. Primeiro porque é baseado naquele que considero o melhor livro do Stephen King com o mesmo título. Depois porque é adaptado, também, do grande Carrie – A Estranha de 1976 com a Sissy Spacek no papel principal. Também este filme tem como diretora uma mulher muito corajosa que é a Kimberly Peirce, que, em 1999, dirigiu o incrível “Meninos não choram”, que deu o merecido Oscar de Melhor Atriz para Hillary Swank. E outra expectativa estava pelo elenco, fundamentalmente pelas protagonistas: Julianne Moore, que dispensa comentários pelo seu talento. E  Chloe Grace Moretz, que é uma atriz irresistível e das mais interessantes dessa nova geração.

            Com todas essas qualidades, fui cheio de expectativas ao cinema assistir “Carrie – A Estranha”.

            Mas, lamento dizer que, O FILME É MUITO RUIM!

            Outro detalhe: este Carrie aqui não é uma refilmagem do filme de 1976. A diretora deste aqui deixou claro que as referências estariam no livro. E, também, ficou claro que este é um filme totalmente novo passado nos dias de hoje.

            Kimberly Peirce enxergou essa nova geração como uma grande ponte para adaptar todas as idéias do livro, principalmente pela questão do bullying, afinal, a protagonista é sempre hostilizada pelos colegas pelo seu jeito diferente do convencional. E então se resolveu incluir o cyber bullying na história de terror. Desta vez, Carrie não é só humilhada pelos colegas. Agora, também incluem a humilhação no Youtube. Isso, infelizmente, é presente em nossas escolas. A ascensão da internet e das redes sociais trouxe muitos benefícios e vantagens, mas o ser humano, com sua arrogância, sempre usa as tecnologias para o mal e para benefício próprio.

            Poderiam ter incluído uma ironia maior, um clima de terror mais profundo ou explorar tudo o que o filme propôs que deixo claro aqui, a idéia do filme foi campeã.

            Mas o filme preferiu usar todos os clichês de terror adolescente que dominaram as telas no final da década de 1990 e desagradou até mesmo os fãs de terror, afinal, este filme aqui não foi muito bem nas bilheterias mundiais.

            O elenco, a exceção das protagonistas, é fraco. A personagem de Sue, como a patricinha que se revela arrependida por ter hostilizado a Carrie não convence como uma futura heroína ao longo do filme. Isso vale, também para o personagem de Tommy Ross, o típico garoto popular do colégio, aqui, é só caras e bocas em uma atuação constrangedora. Mas nada se compara ao papel da atriz Portia Doubleday, como a rival da Carrie e a causadora do vexame da cena do baile, a Chris. Não sei de onde o estúdio MGM encontrou essa atriz, que não sabe atuar, não transmite aquela carga que se exige de uma profissional das artes cênicas e, aqui, tem um papel mais gritante do que de mocinha da Malhação.

            E o que dizer da dupla de protagonistas? Bom, Julianne Moore é uma atriz de muito respeito e dispensa comentários. Dona de uma carreira promissora em filmes alternativos como “Longe do Paraíso”, ela agora parece estar se divertindo nos blockbusters. Além desse aqui, ela viverá a vilã Coin em “Jogos Vorazes – A Esperança”. Seu papel como mãe dominadora, possessiva e religiosa é tão constrangedor que provoca risos (inclusive na sessão em que eu estava) ao invés de sustos, que, veja bem, o filme não assusta.

            Mas e a nossa pequena, Chloe Grace Moretz? Mesmo ela sendo uma grande atriz com sua pouca idade, ainda é cedo para dizer se ela terá ou não uma carreira consolidada como Sissy Spacek teve. Mas que papel foi esse que deram para essa menina? Ela mal consegue atuar e, infelizmente, não conseguiu expor a carga dramática que um papel desse tamanho exigia.

            Até compreendo a tensão e pressão para se fazer este filme. Afinal, tanto o clássico de 1976, como o livro de King, têm fãs ardilosos que consideram suas obras como intocáveis. E não dá para negar que a diretora Kimberly Peirce deu a cara para bater ao topar essa adaptação aqui. E discordo totalmente dos fãs quando dizem que não se deve tocar em suas obras. Quanto mais se espalhar a cultura e mostrá-la a quem não conhece só valoriza o produto e o torna cada vez mais popular. E adaptar aos novos tempos, é sim, uma forma de valorizar aquilo que já é consagrado e torná-lo acessível para a grande massa. Mas com esse filme aqui, não sei o que todos envolvidos estavam com a cabeça.

            A única coisa que se salva por aqui (isso explica a “nota 4”, ao invés de uma nota menor do que 1), é, realmente, o “Grand Finale”. O baile em si, onde é preparada uma armadilha para a nossa protagonista na premiação do “melhor casal do baile”, onde todos conhecem, de fato, os grandes poderes da Carrie. Até então, ninguém sabe que a menina tem poderes sobrenaturais. O filme de 1976 preferiu esconder isso e só mostrar nos minutos finais. Aqui, seus poderes são mostrados ao longo do filme. Nada contra, afinal, com poderes sobrenaturais, que jovem nunca quis fazer aquilo que os demais não podem?

            E realmente, a seqüência do baile e o que vem depois, basicamente os 20 minutos finais do filme são realmente muito bem feitos e de fato fez um bom uso da tecnologia atual. Desde o incêndio até a algumas mortes, é o que se chama do bom uso da computação gráfica.

            O cinema atual está carente de um filme de terror de qualidade e “Carrie – A Estranha” era a esperança. Infelizmente o resultado é chocho. Quem quer ver um terror atual de qualidade, minha dica é para a série “American Horror Story”, do canal FOX, que já está na 3ª temporada.



Nota: 4,0


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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A hora mais escura

A hora mais escura (Zero Dark Thirty)


Direção: Kathryn Bigelow

Ano de produção: 2012

Com: Jessica Chastain, Jason Clarke.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 16 Anos



“A hora mais escura” mexe num vespeiro sem explorá-lo.

            Há 3 anos, em 2010, a diretora Kathryn Bigelow conseguiu quebrar um tabu da Academia com seu “Guerra ao Terror”: se tornar a primeira diretora a levar o Oscar de Direção. E Bigelow não foi só a primeira mulher a levantar a estatueta como ela conseguiu em um filme modesto e de pouco orçamento, derrubar um arrasa-quarteirão que foi “Avatar”. E também provou com “Guerra ao Terror”, ou “The Hurt Locker” – o título original, que há sim, sentimento puro em uma zona de guerra, de mostrar que um conflito não é moldado só de heróis, mocinhos e vilões, mas que, infelizmente há jogo de interesses e a guerra é feita de humanos. É, portanto, diferente dos maniqueísmos e patriotismos em filmes do gênero em Hollywood (não é, Sr. Michael Bay?).

            E agora com seu “Zero Dark Thirty”, ou “A hora mais escura” – na tradução brasileira, que, aliás, faz todo o sentido se colocado em conta o contexto do filme, Kathryn Bigelow prova que não perdeu a mão de colocar o dedo na ferida, mesmo que possa incomodar o grande público. O pano de fundo pode ser o mesmo, que é a questão do terrorismo, mas a questão aqui é muito mais polêmica e profunda. Se em “Guerra ao Terror”, tínhamos os conflitos da Guerra do Iraque, aqui temos a caçada e captura de Osama Bin Laden. E é mais polêmico por uma razão muito simples: a Guerra do Iraque foi um conflito apresentado para as câmeras do mundo inteiro, os bombardeios, a vida em Bagdá e a queda do ditador Saddam Hussein. Foi, aliás, a primeira guerra transmitida em tempo real pela internet. E aqui, em se tratando de Osama Bin Laden, quase tudo o que se sabe são especulações. Mesmo quando estava eclodindo na mídia, em 2001, o assunto Torres Gêmeas e o Terrorismo, pouco se sabia sobre Bin Laden. E depois a busca por ele se tornou mais difícil, principalmente pela quantidade de sósias de esconderijos que ele possui em seu país. Mesmo sua morte, em 2011 é contestada por muitos: muita gente diz que foi montagem ou propaganda política americana.

            Polêmicas à parte, “A hora mais escura” se baseia, fundamentalmente, não em fatos reais, mas em depoimentos e relatos de toda a caça a Bin Laden e aos bastidores da guerra ao terrorismo. Foi, portanto, arriscado de se produzir e escrever.

            A hora mais escura conta a captura de Bin Laden no Paquistão ocorrida (ou não!) em 2011, o filme nos leva a história desde 2003, quando estava eclodindo a Guerra do Iraque, passando pela explosão no metrô de Londres em 2005, até a captura do terrorista há dois anos.

            A diretora Kathryn Bigelow juntou a mesma equipe de “Guerra ao Terror” e nos apresenta um filme quase documental, didático (não há a necessidade de ser entendido no assunto para gostar) e uma fotografia mais obscura possível para um clima mais sombrio que o filme exigia. A técnica aliada e boas idéias nos agraciou com cenas instigantes, assim como em “Guerra ao Terror”, que tem aquela cena espetacular da explosão em Bagdá, aqui, já na abertura, temos a cena da tortura, mostrando os bastidores de como o fanatismo e patriotismo em busca de um bem, digamos, maior leva o ser humano e ser e fazer algo que não é. Aqui, um correspondente de Bin Laden, Ammar, é capturado e sofre os maiores abusos nas mãos da CIA, principalmente pelo personagem de Jason Clarke e essa tortura, ou “interrogatório avançado”, como sugere o personagem, são o ponto chave da primeira meia hora do filme. O retrato, quase documental, usando inclusive imagens reais do ataque no metrô de Londres, em 2005 é outro espetáculo à parte, mas as duas melhores seqüências são, com certeza, a explosão em um restaurante no Paquistão e a meia hora final, da captura em si, que a diretora optou por explorar mais o som e deixar as cenas sob interpretação do espectador, quase na ausência de imagens, deixando o clima, portanto, mais sombrio e profundo.

            Na estréia do filme nos EUA, em dezembro de 2012, a crítica americana detonou o filme por todos os lados. Chamou o filme de fascista, maniqueísta, manipulador e feito para ganhar prêmios. Até a personagem da Jessica Chastain não foi poupada, sendo chamada de fantoche nas mãos da diretora. De fato, o filme foi um fracasso de bilheteria por lá. Mas não demorou muito para ele ganhar seu espaço no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde a crítica brasileira adorou o filme, apontado por alguns críticos como “o melhor filme do ano”.

            Não dá para negar todas as qualidades técnicas e de roteiro do filme, mas, todos esses fatores teriam sido em vão sem uma grande atriz liderando tudo, no caso, a personagem de Jessica Chastain. Seu papel como Maya (indicado ao Oscar de Melhor Atriz e vencedora do Globo de Ouro) é tão sublime, profundo e frio como o gelo, que fica até difícil imaginar essa personagem em um filme denso desses: uma mulher no comando da caçada mais arriscada da história de seu país.

            Deixo registrado aqui que a Jessica Chastain é, no meu conceito, das atrizes mais completas e versáteis da atualidade. Tanto é que ela não para de fazer filme e é sempre requisitada para os papéis.

            Kathryn Bigelow usou a liderança que Maya tem, misturado com o desespero de alguém com esse tipo de responsabilidade. Por aqui, Maya é apresentada como uma mulher extremamente inteligente, segura de si, porém, inexperiente. Se manter no topo, liderar uma equipe em uma missão assim tão arriscada, sem esquecer seu lado mulher são os dilemas dessa jovem.

            Maya é uma mulher praticamente sem sentimentos, sem vida social nenhuma, sem relacionamentos e sempre colocando o trabalho em primeiro lugar. Conforme o filme vai acontecendo, Maya se torna obcecada por seu trabalho, a ponto de ficar viciada pela busca e pela adrenalina que esse trabalho proporciona. Dá até para fazer um paralelo com William James, o personagem de Jeremy Renner de “Guerra ao Terror”, que fica viciado em adrenalina com os confrontos da guerra do Iraque.

            Quem disse que cinema é só entretenimento? Cinema é sim, conhecimento e cultura. Aprende-se muita coisa sobre o terrorismo, o mundo Árabe e sobre a Guerra no Afeganistão assistindo “A hora mais escura”. Junto com “Fahrenheith 11 de Setembro”, do Michael Moore, o próprio “Guerra ao Terror”, da Kathryn Bigelow, e a fantástica série do canal FX, “Homeland”, “A hora mais escura” se figura entre as obras mais importantes sobre esse assunto delicado e perigoso, que é o terrorismo.

            A hora mais escura recebeu 5 indicações ao Oscar 2013: Melhor Filme, Roteiro Original, Montagem, Edição de Som, e, claro, de Melhor Atriz para Jessica Chastain. Venceu o prêmio de Edição de som.
           

Nota: 10,0


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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

As Vantagens de ser Invisível

As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower)


Direção: Stephen Chbosky

Ano de produção: 2012

Com: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Mae Whitman, Paul Rudd, Nina Dobrev, Dylan McDermott, Melanie Lynskey, Joan Cusack.

Gênero: Comédia Dramática

Classificação Etária: 14 Anos



Rock, poesia e relacionamentos embalam “As vantagens de ser invisível”.

            Tem uma música do Charlie Brown Jr., “Não é Sério”, que tem um refrão mais ou menos assim: “na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério, o jovem no Brasil nunca é levado a sério...”, dizendo que, o jovem, o adolescente, precisa ser mais ouvido, ser mais, levado a sério e ser menos tratado como alguém sem opinião. É justamente ao contrário, o jovem deve sim, ser ouvido e deve ter voz e vez, afinal, é, possivelmente, a fase mais importante da vida, pois é um momento de transição, em que após uma infância que a pessoa desenvolve a fala, o psicológico e a capacidade de se comunicar, é na adolescência que surgem as pressões, as dúvidas e certa independência em relação aos pais. Não estou falando de dinheiro, mas esse é o momento da vida que a sociedade e as amizades influem mais na vida do jovem do que os pais. Sigmund Freud dizia que a adolescência é o período que a pessoa “mata seus pais”.

            Exageros ou não, é nessa fase que surge um ser humano de fato e suas escolhas influem, talvez pelo resto da vida, o caminho a seguir.

            Olhando por esse lado, é muito triste e ver a programação destinada aos jovens na nossa TV. Há formadores de opinião guiando nossos jovens da maneira mais errada e perigosa possível, tratando jovem como um produto, e não como humano e vendendo tudo o que é de acordo com o interesse de poderosos. Isso fica mais visível nas novelas. Infelizmente, o adolescente é sempre o imaturo, perdido, que fala gírias e não tem perspectivas (alguém se lembrou de “Malhação”?).

            Infelizmente, a indústria do cinema não foge à regra. O retrato ou o tratamento pode ser menos manipulável, mas é muito difícil um produto de qualidade direcionado aos jovens. Mas, de vez em quando o cinema nos surpreende com um material honesto e humano. Como não se lembrar de “Clube dos Cinco”, “Curtindo a vida adoidado”, ambos da década de 1980, ou o recente “Juno”, filmes que colocam o coração e o lado humano acima de tudo. O cinema deve sim, retratar esse mundo de tempos em tempos e acompanhar a evolução e o público a que se refere, afinal, cada geração tem as suas necessidades e momentos. E nesta década, a 2ª do século XXI, não há filme que retrate melhor esse mundo, essa fase da vida da adolescência que é “As vantagens de ser invisível”.

            Não é exagero dizer que este é o melhor filme do gênero da década, com personagens que é impossível não se identificar, uma trilha sonora de arrepiar, absolutamente bem escrito, uma delícia de se ver e rever, altamente reflexivo e com um ótimo elenco jovem e adulto.

            No roteiro (e que roteiro!), passado do início da década de 1990, temos um jovem, Charlie (Lerman) que acabou de chegar na cidade após a morte da sua tia Helen (Melanie Lynskey) e terá seu primeiro dia de aula. Ele nunca foi popular, mas se sentia um “loser” perante seus colegas. No primeiro dia de aula, porém, seu único amigo foi seu professor, mas logo conhece dois amigos, Patrick e Sam (Ezra Miller & Emma Watson, respectivamente), que logo o acolhem para suas “famílias” e se tem o início de uma longa amizade. Charlie, porém, se apaixona por Sam e tudo complica quando entra na história Mary Elizabeth (Mae Whitman), que se apaixona por Charlie. De início, Mary se apresenta como uma garota amável, mas logo se revela possessiva, “grudenta” e até chata. Paralelamente, a irmã de Charlie, Candance (Nina Dobrev) está tendo um caso com um dos garotos mais populares da escola, Derek, que vira um problema para Charlie. Isso sem falar na convivência familiar, principalmente após a morte da tia, e a convivência escolar, com os “tipos” no colégio, a amizade com seu professor, Bill (Paul Rudd), e esse, digamos triângulo amoroso.

            É quase impossível não se identificar com os personagens. O elenco é farto e há várias histórias que, de fato, parecem a vida real. Charlie é a figura perfeita de um “nerd” em busca de seus objetivos e procurando o convívio no ambiente escolar. Patrick, que é gay, é, também inseguro, mas que não tem medo de mostrar seus ideais. Sam, apresentada aqui como uma garota incrível, descolada, até popular de certa forma, mas que é impossível não se apaixonar pelo seu jeito. E, por isso, chama a atenção e o coração de Charlie.

            Há cenas memoráveis, acompanhadas por uma trilha sonora digna de Oscar (curiosamente, a Academia não indicou esse filme em categoria nenhuma!), como a sequência da dança entre Patrick e Sam ao som de Dexy´s Midnight Runners quase no início do longa, ou o primeiro beijo entre Charlie e Sam, uma cena linda, que merece ser vista e revista e mostra, de verdade, o que é um sentimento verdadeiro entre dois jovens. Outra cena histórica é a sequência em que Sam abre os braços dentro do carro em um túnel ao som de Heroes, do David Bowie. A cena pode parecer até tola e desnecessária, mas, assistindo ao filme se percebe o sentimento da sequência, principalmente depois de se saber que a ideia foi da própria Emma Watson.

            Todo o sentimento e humanidade colocados no filme se refletem muito nas frases de efeito, que também têm no livro. Uma curiosidade é que o próprio diretor e roteirista do filme, Stephen Chbosky foi quem escreveu o livro. No caso, ele escreveu no ano de 1999, mas só agora resolveu colocar nas telonas, usando a linguagem e costumes atuais. E aqui, ele chamou ninguém menos do que John Malkovich para ajudá-lo a produzir. Algumas frases, como “somos todos invisíveis, somos todos infinitos”, ou quando Charlie pergunta a Bill “por que pessoas legais namoram idiotas”? E Bill responde: porque aceitamos o amor que imaginamos merecer. Infelizmente, é verdade, todos nós só fazemos aquilo que imaginamos merecer, às vezes, sem ousadia e sem persistência.

            “As vantagens de ser invisível” chegou sem fazer barulho nos cinemas. Não foi um sucesso comercial, mas, logo ficou sendo conhecido pelo boca-a-boca e por muitos elogios aos poucos que o viram no cinema. Agora que ele já está disponível em DVD, ele pode ser muito bem apreciado e descoberto por um novo público e uma nova geração, que estava carente de um produto que realmente a ouvia, entendia e falava a sua língua.

            Com todos esses fatores, não é absurdo nenhum dizer que “As vantagens de ser invisível” já recebeu ares de “Cult”.


Nota: 10,0


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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Terapia de Risco

Terapia de Risco (Side Effects)


Direção: Steven Soderberg

Ano de produção: 2013

Com: Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum.

Gênero: Suspense Dramático

Classificação Etária: 16 Anos



Terapia de Risco é um último e instigante retrato de Soderberg.

            Durante o lançamento de “Terapia de Risco” em maio de 2013, Steven Soderberg anunciou aposentadoria. Após uma carreira muito vitoriosa, cheia de sucessos, um Oscar no currículo, uma Palma de Ouro em Cannes, um talento comprovado e muitos amigos em Hollywood, fundamentalmente, muitos atores amigos. É impressionante como Soderberg é dos poucos que consegue chamar tantos atores do primeiro time de Hollywood sem abrir mão do orçamento e da qualidade. Sua carreira é muito diversificada e praticamente nenhum filme se parece com o outro. Só para citar os melhores, ele começou a carreira da melhor forma possível, com um filme 100% autoral e independente com o ousado “Sexo, Mentiras e Videotape”, que rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1989 e o prêmio principal no Festival de Sundance. Na verdade, foi o primeiro ano do festival, era uma época em que o cinema independente estava começando a ser descoberto pela indústria e um festival de tamanha credibilidade foi praticamente a confirmação desse crescimento. O ano de seu auge veio em 2000. Foram dois filmes no mesmo ano que confirmaram a habilidade de Soderberg. “Erin Brockovich – Uma mulher de talento”, que deu o Oscar de Atriz para Julia Roberts, não é só um grande filme, mas um retrato muito corajoso da sujeira das indústrias químicas. E “Traffic”, que venceu 4 Oscars em 2001, entre eles o esperado prêmio de Melhor Diretor para Soderberg.

            Isso só para citar os melhores, mas há outros que o espaço aqui não daria. E “Terapia de Risco”, que, segundo as promessas do próprio diretor, é seu último filme, também há a sua marca, embora, segundo sua tradição, não se parece em nada com seus filmes anteriores, exceto a habilidade em trabalhar com atores. E aqui, ele faz isso como poucos.

            Terapia de Risco conta a história de Emily (Rooney Mara, ótima, excelente no papel), que começou a fazer terapia e ficou psicologicamente abalada após seu marido, Martin (Channing Tatum) ter ficado 4 anos preso. Emily tomou vários remédios e nenhum fazia efeito, mas é receitado para ela um novo remédio (novo mesmo, na verdade, não havia sido testado em ninguém) que promete tirar seu estado deprimido, receitado por seu terapeuta, Jon (Jude Law, péssimo no papel). Com a saída de Martin da prisão e com os efeitos desse novo remédio, Emily vai começando, aos poucos a ter uma vida normal, há vestígios de um novo recomeço e de uma vida amorosa com seu marido. Esse remédio novo, porém, causa muito sonambulismo em Emily, em muitos momentos, não se sabe se ela está acordada ou dormindo. Com esses sintomas de sonambulismos, ocorre uma virada em sua vida (infelizmente, não posso falar que virada é essa) e começa o dilema: quem é culpado. Emily, que executou, ou Jon, que receitou o remédio?

            O roteiro de Scott Z. Burns (de “Contágio”) é tão inteligente e provocativo que fica difícil acreditar em algo que se vê e a tensão permanece até o último ato. Recomenda-se não ler muito sobre o filme, pois, há uma brilhante reviravolta na metade do filme e há outra reviravolta arrepiante dos 10 minutos finais. O jogo de gato e rato, a busca pela verdade, o fator psicológico, embalado por ambientes de psicologia e o clima de suspense com uma trilha sonora excelente garantem prender o espectador, que há tempos não se via em um filme hollywoodiano. Estávamos carentes de um filme assim tão cheio de surpresas como é “Terapia de Risco”, que busca inspiração visível em Hitchcock (a câmera de “Psicose”) e em David Fincher (final surpresa de “Seven”) e só mesmo um diretor como Soderberg consegue mudar um filme assim da água para o vinho da 2ª metade sem perder o interesse e mantendo o mesmo clima do começo. É realmente, um retrato com chave de ouro dessa carreira tão boa como foi essa de Soderberg.

            Sobre o elenco principal, na primeira hora do filme, temos a predominância da Rooney Mara e seus problemas psicológicos. Na segunda metade, quase só o Jude Law que aparece, em sua busca pela “verdade”.

            Lamento dizer que, Jude Law não é um grande ator e não consegue segurar um filme sozinho. Ele não tem nem talento nem carisma para chamar um filme só dele. Ele fez muito filme bom, como “O Talentoso Ripley” e “Closer – Perto Demais”, mas ele estava com um grande elenco e grande direção. E aqui, que dependia sim, dele, sua atuação como psicólogo é desastrosa.

            O trunfo do filme, além do ótimo roteiro e surpresas, é a atuação da Rooney Mara. Sua atuação está hipnotizante como uma jovem perturbada. Suas expressões frias que causam calafrios, junto com seus surtos psicológicos, mais uma trilha que, a cada olhar da Rooney embala uma música tensa (também inspirada em “Psicose”) são o ponto alto do filme. A Rooney Mara é uma ótima atriz e se revelou muito mais interessante do que um rosto bonito, principalmente por seu papel em “Millennium – Os homens que não amavam as mulheres”, em que ela se despe da qualquer beleza e faz um papel indicado a Oscar de Melhor Atriz. É certamente, entre as melhores atrizes dessa nova geração.

            Terapia de Risco não foi um grande sucesso de bilheteria, mas foi sendo descoberto no Home Vídeo, e principalmente nos serviços de Streaming com a chegada simultânea no Netflix Brasil. É um filme que merece sim, ser descoberto e apreciado, assim como a maioria da obra de Steven Soderberg.


Nota: 9,0


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