sábado, 19 de julho de 2014

Planeta dos macacos - o confronto



Planeta dos macacos – o confronto (Dawn of the planet of the Apes)

Direção: Matt Reeves

Ano de produção: 2014

Com: Andy Serkis, Jason Clarke, Keri Russell, Toby Kebbell, Gary Oldman, Judy Greer.

Gênero: Ficção Científica

Classificação Etária: 14 Anos


O novo ‘Planeta dos macacos’ mostra um futuro sombrio e pouco sóbrio.

            Quando estreou, em 2011, ‘Planeta dos macacos – A origem’, todo mundo já falou mal antes de ver. Também pudera, a história se passa antes do clássico ‘Planeta dos macacos’ de 1968 – e não temos boas recordações dos últimos reboots. E o mundo ainda estava com trauma do filme de 2001, dirigido por Tim Burton que foi um desastre total. E como se não bastasse, o diretor, Rupert Wyatt, era um mero desconhecido. Mas, para a surpresa geral, o filme é de primeira. Uma grande história, que fala com todas as massas e ainda com o melhor uso da captura de movimentos desde ‘Senhor dos anéis’. Foi um sucesso de público e crítica.

            E tamanho sucesso fez com que o estúdio já pensasse em uma trilogia. E conseguiu!

            ‘Planeta dos macacos – o confronto’ é a continuação direta do filme de 2011, se passa 10 anos depois de ‘Planeta dos macacos – A origem’ e é um filme de meio de trilogia (sim, teremos um 3º filme).

            Na história, após os acontecimentos do primeiro filme, a raça humana quase foi dizimada por conta de um vírus criado em laboratório pelo personagem de James Franco no filme anterior. Os macacos agora são a maioria no mundo e vivem em floresta, liderados por César (Andy Serkis) e agora também por Koba (Toby Kebbell). Mas os humanos necessitam de energia para sobreviver e o único meio é por uma represa. O problema é que essa represa fica dentro dessa floresta onde os primatas vivem e a conciliação – bem como o entendimento de missão pacífica – será algo quase impossível – ou última chance de paz no planeta.

            Novamente, a tecnologia de captura de movimentos, popularizada por Peter Jackson e sua empresa, WETA, são de encher os olhos e fazem não só efeitos para contornar a história, mas como parte dela. Por se passar em uma floresta cheia de primatas – diferente do laboratório do filme anterior, aqui há muito mais atores e, pelo fato de os macacos serem agora os protagonistas (ao contrário dos humanos), eles são bem mais exigidos em suas atuações e expressões artísticas. As atuações de Andy Serkis, bem como seu antagonista, Koba, são dignas de Oscar (e não estou exagerando).

            Se no filme de 1968 tínhamos uma visão sobre o fim da raça humana. Em ‘Planeta dos macacos – A origem’, tínhamos uma metáfora de como o ser humano destrata deu mundo e como maltrata animais em geral. E aqui, a metáfora muda um pouco de lado, e referência é o que não falta: de início temos uma disputa por território, os primatas delimitam as “áreas de humanos” e “áreas de macacos”. Um não pode invadir o espaço do outro para não haver desequilíbrio (alguém se lembrou da Guerra Fria? Pois é) e depois temos uma referência clara à X-Men: conhecemos melhor, conforme o filme vai passando, a figura de Koba. Ele acredita que todos os humanos são maus e quer que humanos devam, ou morrer, ou serem escravos de macacos. E já César deseja que homens e macacos vivam em harmonia. Lembra muito o Professor Xavier e Magneto, do universo dos mutantes. Ou, como os fãs sugerem, lembra muito Martin Luther King e Malcolm X (aliás, Malcolm é o nome do personagem de Jason Clarke) e a luta entre César e Koba é muito Mem coreografada e real.

            Na verdade, Koba e seu “regime” lembram muito o nazismo: um sistema de somente uma raça aceitável como pura e verdadeira e que vale qualquer coisa para chegar ao poder (como Maquiavel previra).

            Um ponto forte também é o clima pessimista do filme. No início de ‘Planeta dos macacos – A origem’ tínhamos uma fotografia cheia de luzes e mostrando os acontecimentos do ponto de vista dos humanos. Já aqui, a fotografia é sombria e pós-apocalíptica. O que faz todo o sentido, afinal, estamos falando de um futuro em que quase todos os humanos morreram e o mundo ficou à beira do colapso (aliás, a Direção de Arte lembra muito a da série ‘The Walking Dead’).

            É um filme de estúdio sim, mas feito com competência e vê-se uma preocupação do diretor e roteiristas em respeitar o espectador, sem momentos dignos de ‘Michael Bay’ e quase sem piadinhas de alívio – aqui o clima é quase de fim do mundo. Mesmo alguns momentos mais “fofinhos”, como o macaco-bebê que brinca com a personagem de Keri Russell (lembrando muito o tratamento nosso com gatos e cachorros) é cortado por uma cena tensa que quase acaba em tragédia.

            Com tudo isso, o filme valeria uma nota 10, sem dúvidas, mas, infelizmente houve uma coisa aqui comum entre os blockbusters desse ano: o lançamento em 3D, porém sem profundidade alguma. Vimos em ‘Godzilla’ ‘X-Men: dias de um futuro esquecido’ que o 3D é inútil e que só incomoda. Aqui não é diferente. Não há NENHUMA cena em que há profundidade mínima que fosse. E olha que com as boas batalhas que têm no filme, aliada com a Direção de Arte sombria, poderiam fazer um 3D espetacular.

            É uma grande pena que um filme tão bacana como esse tenha um 3D tão pobre. É um filme de meio de trilogia com um desfecho centrado, mesmo se o filme não fosse emplacar (mas o sucesso é garantido). E se você for assistir nos cinemas, por favor, sem 3D!


Nota: 9,0

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quinta-feira, 17 de julho de 2014

American Horror Story: Asylum



American Horror Story: Asylum


Criação: Ryan Murphy

Ano de produção: 2012

Com: Sarah Paulson, Jessica Lange, Lily Rabe, Zachary Quinto, Evan Peters, Joseph Fiennes, James Cromwell, Lizzie Brocheré.

Gênero: Terror

Classificação Etária: 18 Anos


O terror se multiplica – e se renova.

            Puxe bem pela memória: qual foi o último filme bom de terror que você viu? Possivelmente já faz algum tempo. Com o cinema investindo mais em suas franquias, a boa qualidade do terror em assustar está sendo jogada de lado. E quando tem, ela é mal feita. Após o furacão que foi a franquia ‘Jogos Mortais’, os estúdios estão apostando em torturas sem limites. E após o fenômeno que foi ‘Atividade Paranormal’, agora os filmes de terror genéricos que falam sobre espiritismo estão por aí. E a grandiosa maioria é de qualidade duvidosa.

            Mas, voltando à pergunta inicial, qual será que foi o último bom filme de terror que nós vimos? Bom, a esperança estava no ano passado com ‘Carrie – A Estranha’, um remake do filme de 1976 e com uma boa atriz como protagonista: Chloe Grace Moretz. Mas o resultado foi um fracasso de público e crítica.

            O último filme bom de fato de terror possivelmente foi o 1° Jogos Mortais, de um distante 2004. Antes de a série virar repetição de si mesma, ela mostrou um ponto de vista diferente de terror e um final surpresa.

            Mas, e os dias de hoje? Bom, se considerarmos que vivemos a época de ouro das séries de TV, com roteiros e personagem melhores do que o cinema, isso também aconteceria naturalmente com as séries de terror.

            Ou melhor, A série, no singular mesmo, que não só apresenta um roteiro ultra-inteligente, situações de fotografia e câmera de atiçar e assustar o espectador e ainda inovar até no formato atual das séries: American Horror Story. Criada por Ryan Murphy em 2011 já irá para a 4ª temporada no canal Fox, mas esse comentário se resume à 2ª temporada, de 2012, que já está disponível no Netflix.

            E porque ela é tão inovadora? Por duas razões. Primeiro, é que toda e qualquer série, independentemente do número de temporadas, conta uma história centrada e fechada e muitas vezes, para o entendimento de uma 4ª temporada, por exemplo, deve-se voltar à 1ª e entender todo o contexto. E aqui não. Cada temporada começa e termina de um jeito completamente diferente da anterior. No caso de American Horror Story, a 1ª temporada se passou em uma casa abandonada e a 3ª foi em um convento. E a 2ª (a melhor de todas – e objeto desse estudo) se passa em um hospício.

            Outra razão para a série ser tão inovadora é o clima de terror que só se tinha nos grandes clássicos do gênero, como ‘O Exorcista’ e ‘O Iluminado’. Muitas vezes o terror não está só nos momentos sanguinolentos, mas às vezes até em um diálogo, ou expressão de algum personagem. É quase que uma referência e homenagem aos primeiros filmes de Darren Aronofsky, ‘Pi’ e ‘Réquiem para um sonho’.

            Essa 2ª temporada, Asylum, se passa no hospício Briarcliff, no ano de 1964. A instituição foi fundada pelo padre Timothy (Joseph Fiennes) e conta com freiras e médicos para cuidar dos pacientes. A líder dessas freiras é a irmã Jude (Jessica Lange) e sua assistente, Mary Eunice (Lily Rabe). Os doutores responsáveis pela “cura” dos pacientes são o cientista Arthur Arden (James Cromwell) e o psiquiatra Oliver (Zachary Quinto). Muitos pacientes estão lá de forma injusta, que é o caso da jornalista Lana Winters (Sarah Paulson), e os possíveis assassinos, Kit Walter (Evan Peters) e Grace (Lizzié Brocheré).

            Cada personagem tem o seu momento na série. E a cada episódio fica aquela impressão de que “nada é o que parece ser”. Muitas vezes, aquele personagem que era tratado como herói ou “do bem”, se revela mais perigoso. Ou ao contrário. De início, o espectador é apresentado à personagem da Jessica Lange, que é mostrada como uma freira ditadora e impiedosa. Ela prende Lana injustamente no hospício por suas idéias contrárias e a série vai mostrando em flashbacks o tratamento cruel que ela dá aos pacientes e seu vício por álcool.

            Mas depois, a coisa muda de lado. A irmã Jude começa a perder poder na instituição para o Dr. Arden e é vítima de armação de sua “amiga”, Mary, que toma o poder e interna Jude e a rebaixa como uma paciente comum.

            Mas quem são Arden e Mary? O Dr. Arden sempre foi apresentado na série como um personagem obscuro – e quanto mais se sabe sobre ele, mais interessante ele fica. Ele faz experimentos em seres humanos – do mesmo jeito que a ciência faz em ratos hoje em dia – e tem o “sonho” de transformar seres “inferiores” (os pacientes), em seres “evoluídos”. Alguém associou isso ao Nazismo? Se alguém fez esse paralelo, acertou em cheio. O Dr. é acusado pela paciente Charlotte Brown (papel de Franka Potente) se ter servido ao Nazismo. O problema é que ninguém acredita nela. Primeiro pelo seu estado visível de loucura, segundo porque ela diz que é a própria Anne Frank, que escreveu seu diário em um Best-Seller. Esse arco ocorre em 2 episódios apenas, mas tem um grande desfecho.

            E Mary é apresentada, de início, como uma freira doce e atenciosa, mas que se revela ambiciosa e ainda pior, possui o diabo no corpo. Literalmente. E conforme a série vai passando, seu estado de possuída é mais evidente e vai tendo contornos de sadismo e crueldade. Vai chegar uma determinada hora da série que Mary será a grande vilã.

            Outro detalhe importante é a troca de protagonistas ao longo dos episódios. De início tínhamos a Jessica Lange como o principal nome, mas que depois outros personagens serão apresentados e, assim como o Dr. Arden, quanto mais se conhece, mais interessante fica. Que é o caso do psiquiatra Oliver, que de mero coadjuvante e homem certinho se revela um sádico e psicopata (fazendo o paradoxo de sua profissão). Ele seqüestra Lana para suas experiências com mulheres e acusa Kit Walter injustamente de assassinato, sendo que o culpado é ele.

            Aliás, Kit Walter é vivido de forma soberba por Evan Peters. Ele está nas 3 temporadas da série e se revela um ótimo ator. Ele viveu o mutante Mercúrio em ‘X-Men: Dias de um futuro esquecido’ e está em alta em Hollywood. E deve estar na 4ª temporada.

            Mas a grande protagonista da série, aquela personagem que vai definir o futuro da série é a Lana Winters. Ela começa como uma mera jornalista, é internada injustamente e passa por poucas e boas na série: quando ela tem um suspiro de liberdade, iludida pelo Oliver de libertá-la, mas ele a seqüestra e só não a mata porque, por um golpe de pura sorte, ela consegue fugir. Mas quem disse que essa fuga que trará paz? Ela acaba voltando a Briarcliff e tem que conviver com uma espécie de ditadura da irmã Mary Eunice e experimentos do Dr. Arden. Quando ela finalmente consegue o direito de sair do hospício, ela conta suas experiências em seu livro – que logo vira Best-seller - e inicia o plano de fechar as portas de Briarcliff.

            A história não termina aí, mas daí para frente seria entregar demais a história, mas ‘American Horror Story: Asylum’ é um puro deleite para fãs de terror e sempre está entre os indicados a Globo de Ouro e Emmy.

            Outro detalhe importante: como uma legítima série adulta, a falta de pudor é um ponto alto. Não espere sutilezas nas cenas, a série é estritamente violenta e sombria – e ousada também. A cena em que a irmã Mary e o padre Timothy transam (sem a vontade dele e com direito a uma rápida nudez frontal dela) é dessas coisas que jamais passariam em uma TV aberta, por exemplo.

            Enquanto é discutido se pode ou não um beijo gay, ‘American Horror Story: Asylum’ está a mil corpos à frente do seu tempo.


Nota: 10,0

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terça-feira, 15 de julho de 2014

Kinsey - vamos falar de sexo



Kinsey – Vamos falar de sexo (Kinsey)


Direção: Bill Condon

Ano de produção: 2004

Com: Liam Neeson, Laura Linney, Oliver Pratt, Chris O’ Donnell.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 16 Anos


“Kinsey” tem uma história tão surreal que só poderia ser real.

            Nos dias de hoje, a sociedade americana vende para o mundo como um povo progressista e com idéias avançadas, mas é bom saber que, em um passado não muito distante, eles já foram puritanos, e por que não dizer, retrógrados. Estamos falando do início dos anos 1950, com a sociedade ainda com o calor da vitória da 2ª Guerra Mundial e dessa vez com um novo inimigo declarado: a URSS, e, fundamentalmente, o sistema comunista.

            Era uma época, também, que o sexo era um tabu. E foi nesse tempo e espaço que viveu o Dr. Alfred Kinsey, que revolucionou a forma de como encaramos a sexualidade e seu legado permanece até os dias de hoje.

            Mas, afinal, quem foi esse Alfred Kinsey?

            Ele foi um Entomologista e Zoólogo norte-americano que, de início, tinha poucas pretensões e coletou mais de 1000 vespas para estudar mais a fundo a espécie.

            Mas foi em outro ramo que Kinsey se destacou. Ele sempre teve a infância reprimida, em especial seu pai, que o reprimia de quase tudo, até da dança de salão (!). Kinsey se casou virgem aos 25 anos com Clara McMillen, mas logo percebeu que, sexualmente, o casal ia mal. Seu pênis era muito grande e a penetração causava dores à sua esposa. O casal tentou procurar ajuda médica, mas ninguém tinha respostas às dúvidas. E foi por essas dúvidas que Kinsey começa a se interessar pela sexualidade humana. Com todos esses porquês, ele começa conversando com homens e mulheres, queria mostrar para o mundo que no sexo tudo é normal e com o tempo descobre que sua atração também é por homens.

            Kinsey começa entrevistando seus alunos (ele é professor universitário), e depois expande para o público em geral, mas seu ápice foi com suas principais publicações: em 1948, ele publica o livro ‘Sexual Behavior in the Human Male’ (Comportamento sexual masculino, que, absurdamente, não foi publicado no Brasil) e em 1953, ‘Sexual Behavior in the Human Female’ (Comportamento sexual feminino, que também não chegou por aqui).

            Seus livros foram um sucesso de público e crítica, mas não demora muito para a sociedade conservadora o acusar de tudo o que é nome: foi chamado de “destruidor de lares”, de sádico e, claro, de comunista.

            Mas, seu estudo mais polêmico foram as entrevistas com pedófilos para conhecer o que ele chamou de “orgasmo infantil” (um tema polêmico até para os dias de hoje).

            Sua morte foi em 1956, mas suas idéias e obras são estudadas até hoje, em especial em cursos de educação sexual e faculdades de psicologia.

            E é exatamente sobre essa história e pessoa que fala o filme ‘Kinsey – vamos falar de sexo’.

            A direção e o roteiro são de Bill Condon (de ‘Deuses e Monstros’) e faz uma homenagem honesta à pessoa e à obra de Kinsey.

            Mais do que isso, é uma bela reconstrução de época e, embora o filme não tenha feito sucesso comercial (mas deveria!) é uma história que merece ser conhecida, seja pelo filme ou pela biografia do Kinsey.

            Quem interpreta o protagonista é Liam Neeson, que faz brilhantemente o médico que, ao passo que é um doutor revolucionário, é um homem inseguro e internamente infeliz, além dos problemas em casa.

            E sua esposa, Clara McMillen é interpretada pela sempre ótima Laura Linney (indicada ao Oscar pelo papel) e faz uma típica dama dos anos 1950: insegura sexualmente e dividida entre crescer como uma mulher e manter a tradição paternalista. A primeira cena em que ela e seu marido vão ao médico para falar dos problemas sexuais, bem como o ato sexual em si, são muito bem produzidas.

            Mas por mais que o filme seja muito bem realizado e escrito, são maior trunfo é entender a mentalidade da sociedade da época.

            A forma como Bill Condon coloca a todos, desde o tradicionalismo até os jovens mais pervertidos, é um ponto chave para o filme. Desde o semblante de um casal jovem constrangido em contar suas experiências até os risinhos nervosos na aula de educação sexual, mostram que o ser humano é alheio às mudanças.

            Esse filme, ‘Kinsey – vamos falar de sexo’, não deve ser visto como um produto de entretenimento. E, para os mais entusiasmados, digo que as cenas de nudez e sexo são raras e quase nulas. O filme se preocupou mais em mostrar a história do homem e seu legado.

            E se considerarmos que, em pleno ano de 2014, cerca de 60 anos depois dos acontecimentos do filme, um simples beijo entre dois homens em uma novela provoca comoção e era algo novo na telinha da TV, vemos que, infelizmente, a sociedade não evoluiu sexualmente.


Nota: 9,0

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sábado, 5 de julho de 2014

Argo



Argo

Direção: Ben Affleck

Ano de produção: 2012

Com: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Clea Duvall, Taylor Schilling.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 14 Anos


Argo é urgente e realista

            Ben Affleck começou com tudo em Hollywood. Seu primeiro grande filme, Gênio Indomável, já foi um sucesso de público e crítica e faturou o Oscar de Roteiro Original em 1998. E o roteiro é escrito pelo próprio Affleck. Depois ele conseguiu um certo sucesso, principalmente com “Armageddon” e o premiado “Shakespeare Apaixonado”. Anos depois, porém, ele se perde fazendo pose de galã a cada filme, e em produções de gosto duvidoso, como a péssima adaptação dos quadrinhos em “Demolidor – o homem sem medo”, mas o fundo do poço foi seu caso com a estrela Jennifer Lopez, conhecido como “benifer” e fundamentalmente o fiasco que foi o filme “Contato de Risco”, que faturou todos os prêmios possíveis do troféu Framboesa de Ouro.

            Porém, em 2007, quando eu – e todo mundo – achava que Ben Affleck já tinha morrido para o cinema, eis que ele ressurge com força total, agora como diretor. E ele se revelou um excelente diretor de filmes. Tudo começou com o espetacular “Medo da Verdade”, que foi muito elogiado e até garantiu uma indicação ao Oscar para Amy Ryan. Três anos depois, em 2010, ele faz um filme melhor ainda: “Atração Perigosa”. Apesar desse título estranho, o filme foi vendido como um filme de ação – quando na verdade é um drama. É um filme de assalto muito perturbador e com ótimas atuações do próprio Ben Affleck e da Rebecca Hall. Já em 2012, ele realiza aquela que é a sua obra-prima: Argo. Um filme muito corajoso, quase documental, na verdade, tenso do início ao fim e esquenta o debate sobre a tensão EUA-Irã. Argo é, portanto, não só um grande filme como cinema, mas uma boa obra para entender a história geral do mundo e a geopolítica – isso sem tomar partido de nada nem questionar a inteligência da plateia.

            Argo é baseado em uma história assustadoramente real que se passa no ano de 1979, no calor da Revolução Iraniana. Naquele país, há diversos protestos contra o ex-aiatolá Khomeini, que ganhou asilo político nos EUA, que apoiaram a opressão ao povo iraniano. Um desses protestos ocorre na frente da embaixada americana e a mesma acaba sendo invadida. Seis diplomatas americanos conseguem escapar e se refugiam na embaixada canadense. Eles vivem lá por meses, e tanto o governo americano como a CIA não conseguem um meio de tirá-los de lá, até que um especialista em exfiltrações, Tony Mendez (papel de Ben Affleck), tem a ideia de fazer uma produção hollywoodiana falsa com o nome de “Argo”, que consiste em uma ficção científica de baixo orçamento que deve ser “filmada” no Irã. Para dar certa vivacidade à trama, Mendez contrata o maquiador John Chambers (John Goodman) e o produtor Lester Siegel (Alan Arkin – que foi indicado ao Oscar pelo papel) para a missão e ele contrata até uma equipe para convencer os iranianos de sua história e tirar os diplomatas de lá.

            Além do ótimo roteiro que serve como estudo para qualquer debate da questão do Oriente Médio em relação ao Ocidente, Argo ainda consegue o feito de deixar o espectador tenso mesmo ele sabendo o que vai acontecer na história – os 15 minutos finais são perturbadores. Além disso, devemos registrar a ótima reconstituição de época – fruto de uma fotografia cuidadosa, figurinos muito com cara de anos 1970 mesmo e os trejeitos e maneirismos exigidos – tudo para entregar o mais realista possível.

            Os personagens do filme são reais – por exemplo, John Chambers foi um maquiador hollywoodiano vencedor do Oscar por “Planeta dos Macacos”, de 1968 e o próprio filme se encarrega de usar imagens reais contrastando com as imagens do filme – e podem até confundir os mais desavisados.

            Argo foi o grande vencedor do Oscar de 2013. Levou 3 estatuetas: Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Edição. E ganhou vários prêmios que foi indicado, como o Globo de Ouro e Bafta. Muito merecido, aliás. E o próprio Ben Affleck também merece. Com tudo o que ele passou sendo muitas vezes questionado e muito subestimado, é possível sim, chama-lo de Sir. E não nos esqueçamos que ele é o próximo Batman em “Batman VS Superman – Dawn of Justice”. É esperar para ver.
             

Nota: 10,0

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Encontros e Desencontros



Encontros e Desencontros (Lost in Translation)


Direção: Sofia Coppola

Ano de produção: 2003

Com: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris.

Gênero: Comédia Dramática

Classificação Etária: 14 Anos


Sofia faz de “Encontros e Desencontros” sua obra-prima.

            Sofia Coppola praticamente nasceu em um set de filmagem. Seu ano de nascimento é 1971 e é ela o bebê de “O Poderoso Chefão”, de 1972. O motivo principal é, claro, seu pai, o grande Francis Ford Coppola, diretor do “Poderoso Chefão”. Com um nome desses, obviamente que ela não poderia ficar de fora do mundo do cinema e logo começou a tomar as rédeas do negócio.

            Seu grande momento viria em 1990, quando seu pai a chamou para fazer a Mary Corleone em “O Poderoso Chefão 3”.

            Mas o resultado foi um desastre. Muita gente associa a não aceitação do filme ao papel de Sofia.

            Ela ganhou o prêmio Framboesa de Ouro em 1991 de Pior Atriz Coadjuvante pelo filme e ficou anos até ser vista novamente pelos holofotes. Em 1997 ela protagoniza o clipe Elektrobank, da banda The Chemical Brothers e dirigido por Spike Jonze.

            Seu retorno ao cinema foi em 1999, com a superprodução “Star Wars I – A Ameaça Fantasma”. E novamente Sofia foi muito criticada e também indicada a Pior Atriz Coadjuvante pelo papel.

            O reverso da medalha veio no mesmo ano, 1999. Ela realiza um filme lindo, intimista e foi um suspiro para quem estava carente de filmes autorais: “As Virgens Suicidas”, que é sensacional.

            Com o sucesso de crítica, de “As Virgens Suicidas”, Sofia teve sinal verde para escrever e dirigir seu filme seguinte, “Encontros e Desencontros”.

            Antes de qualquer coisa, esqueça esse título inútil em português. Vendeu o filme da pior maneira possível, como uma comédia romântica para os apaixonados, o que não tem nada a ver. Seu título original, “Perdido na Tradução”, combina muito mais com o espírito do filme.

            “Encontros e Desencontros” conta a história de Bob Harris (Bill Murray – no melhor papel de sua carreira) que é um famoso ator de cinema e agora está gravando um comercial de uísque em Tóquio, deixando nos EUA seu filho e esposa. Em uma certa noite, ele conhece, no bar do hotel, a simpática Charlotte (Scarlett, também ótima!). Os dois passam a maior parte do tempo sozinhos, Bob não conhece ninguém em terras japonesas e Charlotte até tem, seu marido, John, que é fotógrafo e está em Tóquio a trabalho. Mas ele a deixa mais tempo sozinha e é essa solidão que a faz aproximar de Bob. Os dois ficam, então, amigos e se aventurando por essa terra desconhecida chamada Japão.

            Dizer que “Encontros e Desencontros” é um romance é absurdo. É um filme que fala de solidão, fala muito com o tema da globalização e é uma crítica até ácida à Hollywood atual. Explico esses três motivos.

            Sofia é uma diretora tão segura e com o pé no chão que, em momento algum o filme caminha para o romance hollywoodiano. Muito pelo contrário. Bob e Charlotte falam de suas vidas como velhos amigos, contam piadas juntos e suprem seus momentos mais baseados no “Carpe Diem”, ou, “aproveite o dia” do que com interesses sexuais. Os dois querem, portanto, mais viver do que sobreviver.  Em uma cena, Charlotte fala para Bob: “Se voltarmos para cá, não será como agora, vamos aproveitar o hoje”. E muitas vezes temos que fazer isso em nossas vidas, aproveitar mais o momento porque nada volta como era antes e o momento passa e a pessoa não viveu.

            Há uma cena, lá pela metade do filme em que os personagens estão em um karaokê e Charlotte canta a canção “Brass in Pocket” de “The Pretenders” especialmente para Bob. Quem a vê de fora, parece mais uma cena musical, mas só quem acompanha e se apaixona pelo filme que realmente entende o porquê o motivo da cena ser poética.

            Em alguns momentos, quase não há diálogos. Muitas vezes a trilha sonora sensacional e lúdica fala por si só. Além do próprio olhar e semblante dos protagonistas. Mas há quem se engane quem acha que, por não ter romance o filme não tem sentimentos. Ao contrário, é dos filmes mais verdadeiros e humanos do cinema recente. Como não se apaixonar por cada tomada de Bob e Charlotte e por mais que o foco seja os dois juntos, também não podemos nos esquecer que seus momentos sozinhos também dizem muito sobre o filme e fala muito com o que passamos hoje: em que se sentimos solitários internamente e que de vez em quando nossas amizades e escolhas nos fazem felizes por poucos momentos.

            Mas o filme não é só sentimentos, na verdade, o roteiro de Sofia também se abriu às metáforas do mundo globalizado e para criticar a mesma Hollywood que quase a expulsou de fazer o que ela mais ama, que é cinema.

            A paisagem de Tóquio também é, de certa forma, um personagem do filme. Essa grande cidade que se divide entre a “ocidentalização” e tradição de seu povo é retratada de forma única com uma direção de arte e fotografia cheia de detalhes e de encher os olhos. Muita gente criticou Sofia por achar que ela falou mal do Japão e colocou esse país no filme de forma pejorativa. Discordo completamente. Sofia quis mostrar aqui o quanto o Japão é um país que respeita seu povo e tradição e ela usa essa grande metrópole como metáfora para a solidão urbana. Além do mais, o “pejorativo” que muita gente diz é a crítica que Sofia faz a Hollywood e ao mundo da publicidade, e não do povo japonês. Aliás, quem tiver o DVD, há um making of em que Sofia declara seu amor ao Japão e, sem as locações, ela não conseguiria fazer seu filme como ela gostaria.

            E as críticas à Hollywood e à indústria da publicidade se refletem em dois momentos: logo na abertura, Bob está na gravação de seu comercial de uísque e o diretor fala (em japonês) que o comercial está mal feito. Bob refaz a cena e apresenta até um sarcasmo claramente, depois o diretor aprova. É uma crítica ao bom gosto do mundo bizz. E a crítica ao mundo de Hollywood está em uma coletiva de imprensa de um filme de ação fictício, Midnight Velocity, em que a protagonista do “filme”, Kelly (Anna Faris, da cinessérie “Todo Mundo em Pânico”) é o típico clichê das atrizes adolescentes que estão mais preocupadas em aparecer do que trabalhar. E não devemos nos esquecer que Bob é o retrato de um ator em decadência e também um retrato do descaso que a indústria cinematográfica faz com seus ídolos.

            “Encontros e Desencontros” venceu o Oscar de Roteiro Original. A própria Sofia escreveu o roteiro e a premiação foi mais do que justa. O filme ainda foi indicado de Direção para Sofia Coppola, Melhor Filme e Ator para Bill Murray.

            A perda de Filme e Direção foi até justa, pois o vencedor nesses casos foi “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” e não se pode falar em injustiça nesse caso. Mas a derrota para Melhor Ator foi um insulto. Quem venceu foi Sean Penn por “Sobre Meninos e Lobos”. A injustiça foi tão grande que o próprio Bill Murray fez questão de não aplaudir Sean Penn pelo prêmio. E não devemos nos esquecer que o filme ainda foi ignorado em mais 5 categorias que, no meu conceito, deveriam ser lembradas: Melhor Atriz para Scarlett Johansson (ela não ter sido indicada por sua Charlotte foi ainda pior do que a não premiação de Bill Murray); Fotografia, Direção de Arte, Trilha Sonora e Edição.

            Assistir a um filme de Sofia é sempre bom e é melhor ainda saber que ela é uma diretora autoral e escreve tão bem quanto seu pai, Francis. E para quem a criticou e torceu por seu fracasso na carreira por seu sangue e por “O “Poderoso Chefão 3”, digo aqui: Sofia está aí para ficar e é das melhores pessoas da Hollywood atual. Pronto, falei!


Nota: 10,0

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