segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vencedores do Globo de Ouro 2016


Neste domingo, dia 10, foi realizada a entrega do Globo de Ouro. Os vencedores estão em negrito:

Cinema:

Melhor Filme Dramático
O Regresso
Spotlight - Segredos Revelados
Carol
O Quarto de Jack
Mad Max: Estrada da Fúria

Melhor Filme de Comédia ou Musical
Joy: O Nome do Sucesso
Perdido em Marte
Descompensada
A Grande Aposta
A Espiã que Sabia de Menos

Melhor Ator Dramático
Bryan Cranston (Trumbo: Lista Negra)
Leonardo DiCaprio (O Regresso)
Michael Fassbender (Steve Jobs)
Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
Will Smith (Concussion)

Melhor Ator de Comédia ou Musical
Christian Bale (A Grande Aposta)
Steve Carell (A Grande Aposta)
Matt Damon (Perdido em Marte)
Al Pacino (Não Olhe Para Trás)
Mark Ruffalo (Sentimentos que Curam)

Melhor Atriz Dramática
Cate Blanchett (Carol)
Rooney Mara (Carol)
Brie Larson (O Quarto de Jack)
Saoirse Ronan (Brooklyn)
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)

Melhor Atriz de Comédia ou Musical
Jennifer Lawrence (Joy: O Nome do Sucesso)
Amy Schumer (Descompensada)
Melissa McCarthy (A Espiã que Sabia de Menos)
Maggie Smith (A Senhora da Van)
Lily Tomlin (Grandma)

Melhor Ator Coadjuvante
Idris Elba (Beasts of No Nation)
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
Michael Shannon (99 Homes)
Sylvester Stallone (Creed)
Paul Dano (Love & Mercy)

Melhor Atriz Coadjuvante
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
Jane Fonda (Youth)
Alicia Vikander (Ex_Machina)
Helen Mirren (Trumbo: Lista Negra)
Kate Winslet (Steve Jobs)

Melhor Diretor
Alejandro González Iñarritu (O Regresso)
Ridley Scott (Perdido em Marte)
Todd Haynes (Carol)
George Miller (Mad Max)
Tom McCarthy (Spotlight - Segredos Revelados)

Melhor Roteiro
Os Oito Odiados
Spotlight - Segredos Revelados
A Grande Aposta
O Quarto de Jack
Steve Jobs

Melhor Filme Estrangeiro
Son of Saul (Hungria)
O Clube (Chile)
Cinco Graças (Alemanha / França / Turquia)
O Novíssimo Testamento (Bélgica / França / Luxemburgo)
O Esgrimista (Finlândia / Estônia / Alemanha)

Melhor Filme de Animação
Anomalisa
O Bom Dinossauro
Divertida Mente
Peanuts
Shaun, o Carneiro

Melhor Trilha Sonora Original
Carol
A Garota Dinamarquesa
Os Oito Odiados
Steve Jobs
O Regresso

Melhor Canção Original
Writing's On The Wall (007 Contra Spectre)
Simple Song #3 (Youth)
See You Again (
Velozes & Furiosos 7)
One Kind of Love (Love and Mercy)
Love Me Like You Do (
Cinquenta Tons de Cinza)


TV:

Melhor Série Dramática
Empire
Game of Thrones
Mr. Robot
Narcos
Outlander

Melhor Série de Comédia ou Musical
Orange is The New Black
Silicon Valley
Transparent
Casual
Mozart in the Jungle
Veep

Melhor Ator em Série Dramática
Liev Schreiber (Ray Donovan)
Jon Hamm (Mad Men)
Rami Malek (Mr. Robot)
Wagner Moura (Narcos)
Bob Odenkirk (Better Call Saul)

Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical
Jeffrey Tambor (Transparent)
Aziz Ansari (Master Of None)
Gael García Bernal (Mozart In The Jungle)
Rob Lowe (The Grinder)
Patrick Stewart (Blunt Talk)

Melhor Atriz em Série Dramática
Robin Wright (House of Cards)        
Viola Davis (How To Get Away With Murder)
Caitriona Balfe (Outlander)
Eva Green (Penny Dreadful)
Taraji P. Henson (Empire)

Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical
Gina Rodriguez (Jane The Virgin)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Rachel Bloom (Crazy Ex-Girlfriend)
Jamie Lee Curtis (Scream Queens)
Lily Tomlin (Grace and Frankie)

Melhor Minissérie ou Telefilme
American Crime
American Horror Story
Flesh & Bone
Wolf Hall
Fargo

Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme
Oscar Isaac (Show Me a Hero)
Patrick Wilson (Fargo)
Idris Elba (Luther)
David Oyelowo (Nightingale)
Mark Rylance (Wolf Hall)

Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme
Queen Latifah (Bessie)
Lady Gaga (American Horror Story: Hotel)
Sarah Hay (Flesh & Bone)
Felicity Huffman (American Crime)
Kirsten Dunst (Fargo)

Melhor Ator Coadjuvante
Alan Cumming (The Good Wife)
Damian Lewis (Wolf Hall)
Ben Mendelsohn (Bloodline)
Tobias Menzies (Outlander)
Christian Slater (Mr. Robot)

Melhor Atriz Coadjuvante
Joanne Froggatt (Downton Abbey)
Uzo Aduba (Orange is The New Black)
Regina King (American Crime)
Judith Light (Transparent)
Maura Tierney (The Affair)







           
           




domingo, 10 de janeiro de 2016

Os Oito Odiados


Os 8 Odiados (The Hateful Eight)

Direção: Quentin Tarantino

2015

Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Michael Madsen, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Channing Tatum.

Western

18 Anos

O cinema precisa de Tarantino

            Os 8 Odiados, o 8º filme de Quentin Tarantino, quase deixou de existir, pois o roteiro do filme vazou, causou a ira de Tarantino, mas depois, felizmente, ele voltou atrás.
            Não se trata do melhor filme dele, Bastardos Inglórios e Django Livre são melhores, por exemplo, mas todas as marcas dele estão aqui: personagens com intenções duvidosas, violência quase gratuita e estilizada e nada é o que parece ser.

            Quentin Tarantino foi na contramão de Hollywood, na qual todo mundo filma em formato digital, ele filmou ‘Os 8 Odiados’ em 70mm, o que fica muito visível no início, com uma bela direção de arte, que se passa na neve, com vários planos abertos e uma riqueza em detalhes do cenário. Depois o filme se passa basicamente todo em um único lugar, chegando a ser claustrofóbico, mas quem disse que não apresenta um bom uso da câmera? Alguns planos dentro do mesmo cenário são abertos e enquanto um personagem faz algo no centro, outro faz algo de relevante em uma ponta, e por aí vai.

            É fácil comparar ‘Os 8 Odiados’ com o último trabalho de Tarantino, Django Livre, pois se passa no Velho-Oeste e o racismo também é um dos temas do filme. Mas seu filme mais parecido com este é justamente seu primeiro, ‘Cães de Aluguel’, afinal, grande parte do filme se passa em um único ambiente e todos os 8 envolvidos estão ali. E para variar, nada é o que parece ser.

            ‘Os 8 Odiados’ conta a história de um carrasco chamado John Ruth (Kurt Russell, ótimo!) que está transportando uma prisioneira, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, que merece ir ao Oscar de Atriz Coadjuvante) para uma cidade e pegar uma recompensa, mas surge no caminho um caçador de recompensa, Marquis Warren (Samuel L. Jackson, em seu melhor papel desde Pulp Fiction) que também quer ir à mesma cidade e também surge Chris Mannix, que também quer carona para a mesma cidade, pois, segundo ele, será coroado xerife do local.

            Como as condições da neve pioram, eles decidem passar uma noite em um armazém e ir à cidade de dia e todos os acontecimentos do filme se desenrolam dentro desse armazém (daí se explica porque o filme é claustrofóbico).

            ‘Os 8 Odiados’ é dividido em 6 capítulos, na qual os dois primeiros se passam na neve e os seguintes na casa. Durante esses dois e na maior parte do 3º, o filme é basicamente 100% de diálogos, e o clima de tensão vai se instalando até o 5º capítulo, na qual tudo é explicado e todas as peças se encaixam.

            O filme deve incomodar os desavisados por 2 motivos: 90% são diálogos e 10% é a violência sem pudor, o que pode irritar o grande público acostumado com a ação hollywoodiana. Portanto, se você não conhece o cinema de Tarantino, não é recomendável começar por este filme aqui, talvez por ‘Bastardos Inglórios’, que é seu filme mais dinâmico.

            Outro motivo é que estamos na sociedade do politicamente correto e tudo pode ser um insulto e há diversas piadas sobre negros e violência contra a mulher. O que deve ser levado em conta é que Tarantino não é racista nem machista (e já provou que não é em outros trabalhos) e estamos falando de um filme que se passa no século XIX e na época ser racista era até um direito religioso (sim, para quem não sabe, Lincoln teve briga com a Igreja quando aboliu a escravidão) a mulher era uma propriedade do marido e não tinha direito nenhum. Hoje sabemos que todos têm direitos, mas na época, isso não acontecia.

            É importante avisar isso antes que alguns grupos venham protestar e boicotar o novo filme do Tarantino.

            Na verdade, o que ele faz aqui é justamente uma crítica à sociedade da época, assim como fez em ‘Bastardos Inglórios’ e ‘Django Livre’.

            Mas, para quem aprecia um bom roteiro, vai se deliciar com ‘Os 8 Odiados’, que é muito delicioso de se ver e acima do roteiro, é um filme que privilegia os personagens. Todos os 8 estão incríveis em seus papéis:

            Samuel L. Jackson faz um caçador que matou vários soldados brancos na guerra e está sendo perseguido. Ele tem um monólogo no 3º capítulo que é digno de Oscar.

            Kurt Russell é um grande personagem que praticamente tem os dois primeiros capítulos só para ele e embora ele divida a tela com mais gente conforme o filme avança, seu personagem fica mais mítico a cada tomada.

            Walton Goggins faz um sujeito cínico e irresistível ao mesmo tempo e que provoca amor e ódio na plateia em fração de segundos. Se vier a indicação para Ator Coadjuvante, será mais do que justo.

            Jennifer Jason Leigh está longe das mulheres fortes da Hollywood atual, mas está completamente maluca como Daisy e consegue atrair a plateia só com olhar e trejeitos. Ela deve ir ao Oscar de Atriz Coadjuvante e também é merecido, já que desde ‘Weeds’ e ‘Mulher Solteira Procura’ ela não fazia algo digno de nota (olha o Tarantino revitalizando carreiras novamente!)

            Esses são os principais no elenco, mas todos têm sua importância: Tim Roth, Bruce Dern, Michael Madsen, Demian Bichir e até Channing Tatum está bem.

            Tudo aqui é incrível, o trabalho de edição, de montagem, de fotografia e a trilha sonora incrível de Ennio Morricone, tudo parece uma viagem ao cinema dos anos 60.

            Em um mundo em que a palavra do produtor é a final, é mágico ver que ainda temos espaço para um trabalho autoral, que pode doer nos mais conservadores, mas foram os autores que salvaram Hollywood no fim dos ano 1960, que, vejam só, é onde estão as referências de ‘Os 8 Odiados’.

Nota: 10,0

Imagens:










Trailer:

Quentin Tarantino - Filmografia


          Quentin Tarantino é um dos poucos autores da Hollywood atual. Seu cinema é único, feito de um fã para fãs. Curiosamente ele não frequentou faculdade de cinema, mas o que ele coloca em tela é tudo o que ele viu em obras nas quais ele é fã. Nos anos 1980 ele era balconista de videolocadora, na qual ele descobriu diversos filmes e juntando àquilo que ele via na juventude, ele tem um conhecimento vasto na sétima arte.

            E juntando todo esse conhecimento – e também em técnicas de filmagem, edição e tudo mais, em 1992 ele realiza seu primeiro filme: Cães de Aluguel, que estreou sem fazer barulho, mas foi ganhando festivais, ganhou status de cult e tem fãs até hoje, sobretudo porque é um filme basicamente de diálogos, que podem ou não ter ligação com a história, violência estilizada e sem firulas e seus personagens não são exatamente heróis nem exatamente mocinhos, fórmula que ele repetiu ao longo da carreira.

            Mas o reconhecimento só veio em 1994, qual Tarantino dirige e escreve ‘Pulp Fiction – Tempos de Violência’, que é aclamado até hoje como um dos melhores filmes da história, apresenta uma narrativa não-linear, revitalizou a carreira de John Travolta, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de Roteiro Original – também foi indicado a Melhor Filme, mas perdeu para Forrest Gump. Pulp Fiction ainda foi o primeiro filme independente da história a bater a arrecadação de 100 milhões de dólares e está até hoje no imaginário popular em momentos clássicos, como a discussão sobre a Holanda e o “royale com queijo”, a dança clássica com Travolta e Uma Thurman, o relógio de ouro e vários outros momentos.

            Em 1997 ele realiza Jackie Brown, que teve uma recepção fria por parte do público e crítica e embora seja inferior aos 2 primeiros trabalhos do diretor, é um grande filme, uma grande homenagem ao cinema de gângster dos anos 1970 e homenagem à Pam Grier, que é a Jackie Brown do título. o elenco ainda contava com Samuel L. Jackson, Robert De Niro, Bridget Fonda e Michael Keaton.

            Após o mini fracasso de Jackie Brown, Quentin Tarantino se ausentou um pouco de Hollywood e alguns críticos mal intencionados diziam que era o fim de sua carreira e que o sucesso de Pulp Fiction e Cães de Aluguel era um golpe de sorte. Ele fez alguns trabalhos como ator, como em ‘Um Drink no Inferno’ e ‘A Balada do Pistoleiro’, ambos dirigidos por seu amigo Robert Rodriguez, alguns episódios da série Alias, com Jennifer Garner e o péssimo Little Nicky – Um diabo diferente. Como diretor, ele fez um episódio de Grande Hotel, mas parecia pouco para um nome como Tarantino.

            Na verdade, ele estava escrevendo, em segredo, seu novo projeto: Kill Bill, que era uma história de vingança na qual a Noiva se vingaria de Bill, seu então marido, porque a hostilizaram no dia de seu casamento.

            E em 2003 estrearia Kill Bill. Na verdade, Tarantino se divertiu tanto escrevendo que dividiu o projeto em 2 volumes, assim nasceria Kill Bill – Volume 1, que estreou no final de 2003, e Kill Bill – Volume 2, que estreou em abril de 2004. São dois filmes completamente diferentes, sendo que o primeiro é uma grande homenagem aos filmes de samurai, aos animes e ao Bruce Lee, claramente na roupa amarela de Uma Thurman, a mesma que Lee usou em O Jogo da Morte. Já o segundo filme era uma homenagem aos Westerns e tudo relacionado ao Velho Oeste.


            Os dois filmes foram um grande sucesso e depois de realizar Kill Bill, Tarantino se juntou novamente ao seu amigo Robert Rodriguez e o ajudou na direção de ‘Sin City – A Cidade do Pecado’, que é uma adaptação de uma famosa HQ de Frank Miller. O filme estreou em 2005, foi elogiado por público e crítica e teve um grande elenco.

            Mas o grande projeto deles juntos foi o Grindhouse, na qual era uma grande homenagem aos filmes de terror b dos anos 70. As sessões Grindhouse consistiam em cinemas baratos, que exibiam 2 filmes a preço de 1 e era um terror que continha mulheres sensuais sendo aterrorizadas por machões, zumbis ou monstros.

            E respeitando tudo isso, o projeto de Tarantino e Rodriguez tinha 2 filmes, cada um dirigiu um: Rodriguez dirigiu ‘Planeta Terror’ e Tarantino dirigiu ‘À Prova de Morte’. Nenhum dos dois foi um estouro de bilheteria, mas tiveram um legião de fãs que lotaram as sessões e se sentiram homenageados. São dois filmes muito bacanas e merecem ser vistos por fãs de cinema de terror. Quem não curte pode achar o viagem maluca e sem sentido, o que justifica o não-sucesso de ambos.



            Esses últimos filmes Quentin Tarantino estava fazendo para se divertir e divertir seu público, mas ele queria voltar às premiações e às glórias de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. E ele pensou em realizar filmes históricos, mas não da forma que você imagina: ele reescreveria a História em uma espécie de trilogia: primeiro seria sobre a 2ª Guerra Mundial com Bastardos Inglórios, depois seria sobre a escravidão com Django Livre e por último sobre a Guerra Civil Americana em Os Oito Odiados.

            Bastardos Inglórios estreou em 2009 e muitos consideram este o melhor filme do diretor. É realmente seu trabalho mais sóbrio, um grande feito de bravura e coragem e é absolutamente delicioso de se ver, sobretudo porque ele mostra a 2ª grande guerra do ponto de vista dos judeus – e dando um desfecho interessante a Hitler. O filme ainda revelou esse sujeito chamado Christoph Waltz, que está incrível no filme como o general nazista, Landa e ele ganhou todos os prêmios possíveis com esse papel – inclusive Oscar e Globo de Ouro. Todos merecidos. Bastardos Inglórios também revelou a francesa Mélanie Laurent, que interpreta uma moça judia que teve sua família morta pelo exército de Landa. Bastardos Inglórios trouxe Tarantino de volta ao Oscar, mas acabou perdendo para Guerra ao Terror, na qual deu o 1º Oscar de direção a uma mulher, que era Kathryn Bigelow.

            Três anos depois ele realiza Django Livre, igualmente corajoso e delicioso, que apresentava um escravo, vivido por Jamie Foxx, que se tornara livre graças ao Christoph Waltz e deseja resgatar sua esposa, que é escrava na casa do personagem vivido por Leonardo di Caprio. Quem faz a esposa é a sempre ótima Kerry Washington e depois deste filme ela se tornou quase um ícone sendo a protagonista da série Scandal e sendo indicada a prêmios pelo papel. Django Livre deu novamente o Oscar a Waltz e o filme ainda levou o prêmio de Roteiro Original.


            E agora, com o mesmo espaço de 3 anos, Tarantino escreve e dirige Os 8 Odiados, sobre a Guerra Civil Americana...

Spotlight - Segredos Revelados


Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight)

Direção: Tom McCarthy

2015

Com: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, John Slattery, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D’Arcy James.

Drama

14 Anos

Uma aula de cinema – e de jornalismo

            No ano de 2001 uma equipe de jornalismo do Boston Globe, conhecida como Spotlight, fez uma investigação sobre as denúncias que os padres das igrejas daquela cidade estariam praticando pedofilia com as crianças. Na verdade, a Igreja já havia sido denunciada no passado, mas a instituição católica colocou tudo por debaixo dos panos e conseguiu “acordos” com as vítimas.

            Mas o jornal estava disposto a levar a investigação até as últimas consequências, pressionando os poderosos e coletando depoimentos das vítimas.

            E o resultado foi mais chocante do que o esperado: foram mais de 80 padres, só na cidade de Boston, que estavam ligados de forma direta aos escândalos. Nem os atentados de 11 de setembro inibiram as investigações. A equipe do jornal recebeu o Prêmio Pulitzer sobre as matérias e o jornal ganhou mais credibilidade do que já tinha.

            Essa é a história de ‘Spotlight – Segredos Revelados’, que estreou sem fazer barulho no ano passado nos EUA, já vem colecionando críticas positivas e está chamando atenção das premiações – ele deve ir ao Oscar deste ano.

            E o filme merece todos os elogios possíveis: ‘Spotlight – Segredos Revelados’ é uma grande homenagem ao jornalismo investigativo, muito na linha de ‘Todos os Homens do Presidente’ (que, curiosamente, está completando 40 anos em 2016) e extraiu toda a urgência do escândalo.

            Quem quer um programa de cinema para se divertir deve procurar em outra sala de exibição. Aqui é cinema sério, de gente grande e na sessão de cinema que este que vos fala estava, não houve uma única risada por parte da plateia.

            Mas ‘Spotlight – Segredos Revelados’ está muito longe de ser considerado chato. Ou não. O grande público pode sair do filme e dizer que ele é “muito parado”, já que, dentro da história, não é uma grande reviravolta e tudo é feito de forma linear. E olha que algum momento dramático poderia passar com toda a pieguice.

            E mesmo se tratando de um filme sobre a pedofilia da igreja, este não é um filme sobre religião. Ele não aponta o dedo na população católica e os culpa sobre a pedofilia, o filme vai onde os poderosos estão, mostra o quanto a igreja como instituição usa argumentos religiosos em benefício próprio e mais do que isso, o filme nos mostra o quanto a fé humana é um tabu: derrubar um escândalo em uma instituição religiosa é muito mais difícil do que derrubar algo relacionado à política ou à uma empresa. E tudo isso porque ainda somos intolerantes quando à religião: a equipe de jornalismo pode muito bem ser vista aos olhos dos religiosos como “hereges” ou coisa do tipo. Alguns integrantes da equipe inclusive têm a formação católica, mas trabalho é trabalho.

            Mas mesmo sendo um filme mais “pé no chão”, ‘Spotlight – Segredos Revelados’ jamais cansa o espectador, muito pelo contrário, cada revelação, cada descoberta da equipe é algo que vai avançando e chegando mais perto de desmascarar os responsáveis e tudo isso com um belo trabalho de montagem e edição (que também devem ir ao Oscar) que tornam o filme mais dinâmico e atraente a cada tomada. Por exemplo, no mesmo espaço de tempo, há um personagem entrevistando uma vítima, no outro, entrevistando um advogado, no outro, um padre, e no outro tem um jornalista na redação coletando provas.

            E tudo isso com um roteiro primoroso do próprio diretor Tom McCarthy e de Josh Singer (que já tem essa veia investigativa, ele escreveu alguns episódios de ‘The West Wing’ e o filme ‘O 5º Poder’), que nos agracia com diálogos instigantes, imparciais e diretos no que eles têm a dizer, sem as firulas hollywoodianas e respeitando a inteligência do espectador. Até a trilha sonora é contida. ‘Spotlight – Segredos Revelados’ é, portanto, um filme de roteiro e direção, não um filme de produtor.

            E o elenco aqui é excelente. É uma grande prova de que um filme para ser bom não precisa chamar os melhores atores do mundo, desde que se tenha um diretor que saiba trabalhar com atores. São ótimos atores sim, mas não há nenhuma estrela e ninguém quer aparecer mais do que o filme.

            Michael Keaton é o líder da equipe e às vezes têm que tomar decisões que não agradem a todos, embora tenha intenções boas. Mark Ruffalo é o que mais se envolve emocionalmente com a investigação. Rachel McAdams é o grande equilíbrio entre jornalista competente e imparcial, mulher forte e ao mesmo tempo feminina e mora com a avó, que é religiosa devota.

            E todo o elenco de apoio está sensacional: John Slattery, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup e Brian D’Arcy James.

            Seja você católico, evangélico, judeu ou ateu, ‘Spotlight – Segredos Revelados’ é um filme para todos, justamente por tratar o caso com imparcialidade e de não ofender a fé – ou falta de fé – de ninguém. Não vá ver o filme com a cabeça de “todo católico é pedófilo” ou “o filme é uma heresia”, vá com a cabeça de uma denúncia com a pedofilia, que não é exclusiva das religiões, é um crime e quem a pratica deve ser punido sim.

            A pedofilia, como prática de estupro, pode deixar consequências físicas, mas as psicológicas dificilmente são superadas e isso ‘Spotlight – Segredos Revelados’ retrata muito bem com os relatos das vítimas e assim como qualquer vítima de estupro, fica constrangida, não recebe o apoio das autoridades, que deviam apoiar e em muitos casos até a família a discrimina. E neste caso específico da pedofilia na igreja, há relatos de vítimas que não receberam apoio de ninguém por estar “ofendendo um homem de Deus”, afinal, é a palavra de um sacerdote respeitado pela sociedade contra uma criança perturbada. E qual criança teria coragem de dizer aos pais que iria abandonar uma vida religiosa porque foi abusada?

É um tabu que estamos muito longe de quebrar.    

Nota: 10,0

Imagens:








Trailer:

O Bom Dinossauro


O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur)

Direção: Peter Sohn

2015

Vozes de: Raymond Ochoa, Frances McDormand, Jeffrey Wright, Peter Sohn, Steve Zahn, Sam Elliott, Anna Paquim.

Animação

LIVRE


A Pixar avança com O Bom Dinossauro – pero no mucho

            Nos últimos anos a Pixar estava fazendo filmes mais convencionais e que não representavam o espírito que estávamos acostumados a ver com Toy Story, Wall-E, Procurando Nemo, entre outros.

            Não eram filmes exatamente ruins (à exceção de ‘Carros 2’, que era realmente um desastre), mas filmes como ‘Valente’ e ‘Universidade Monstros’, que são muito bacanas, eram pouco para uma empresa que se mostrava como inventiva e fazia a plateia pensar.

            Mas daí em 2015 a Pixar veio com o seu melhor filme: Divertida Mente é uma animação totalmente “fora da caixa”, um filme 100% original e parecia a Pixar de sempre, na qual o público saía dos filmes e com a cabeça e coração mudados.

            E pela primeira vez em sua história a Pixar lança dois filmes no mesmo ano por causa de seu cronograma. Além de Divertida Mente, ela lança ‘O Bom Dinossauro’, que estreou em novembro nos EUA e aqui no Brasil chega em janeiro de 2016. O filme foi o que teve a produção mais problemática da Pixar: troca de diretores e equipe e vários adiamentos.

            Ao mesmo tempo, também, ‘O Bom Dinossauro’ é o filme mais bonito da Pixar. Sem exageros. A riqueza de detalhes, nem parece que estamos presenciando um produto gerado por computador, e sim um documentário sobre a pré-história. Portanto, ‘O Bom Dinossauro’ merece ser visto na melhor tela possível, se tiver em 3D ou IMAX, melhor ainda e é mágico imaginar o que o blu-ray pode trazer de material extra e de como foi concebida essa animação.

            Mas ‘O Bom Dinossauro’ também é o filme mais infantil da Pixar, o que não é nenhum demérito, mas sua história é muito convencional e pout-pourri de tudo o que já vimos por aí, como em ‘O Rei Leão’ e ‘Dinossauro’ – só que pior.

            ‘O Bom Dinossauro’ tem uma premissa interessantíssima que traz um questionamento: e se os dinossauros não tivessem sido extintos? E se eles convivessem com os primeiros homens das cavernas? É basicamente isso que acontece.

            Temos a história de um casal de dinossauros que vive no cultivo da terra e logo no início do filme nascem 3 filhos. Um deles é o protagonista do filme, Arlo, que é medroso, não consegue caçar nada nem levar alimentos à família, mas se mostra com um coração enorme. Após um acaso, que não convém contar aqui, ele se separa da família e depara com um menino das cavernas, o Spot, que de início não se dão bem, mas depois nasce uma amizade verdadeira. O menino ajuda Arlo a voltar para casa – e a se defender de tudo.

            A amizade entre os dois é comovente e é o que leva o filme, pena que só após a 2ª metade e no 3º ato da história aparece um grupo de vilões sem carisma e que só justificam algum clímax que a história deveria ter. e também aparece um grupo de dinossauros, muito maiores do que Arlo que também parecem jogados em tela.

            Há um acontecimento que divide o filme em 2 partes e que deveria ter um tom mais dramático, profundo e que mudaria a vida dos personagens, mas, infelizmente, é tratado com superficialidade. E em um filme voltado para o público infantil, isso é um desastre.

            Mas ‘O Bom Dinossauro’ tem várias qualidades, além do já citado visual e amizade entre os protagonistas, o filme traz uma mensagem linda e capaz de levar a plateia às lágrimas e traz aquele ponto de reflexão de um filme da Pixar, que é o de levar a nossa mente a questões que nem passava pela nossa cabeça nos “e se” da história, afinal, esse debate sobre a não extinção dos dinossauros, pode sim ser objeto de estudo em universidades, escolas e palestras.

            O diretor Peter Sohn tem seu primeiro longa-metragem na carreira. Ele já havia dirigido o curta ‘Parcialmente Nublado’, que passa antes de ‘Up – Altas Aventuras’ e é injusto culpa-lo. Este é o seu primeiro filme e há várias qualidades que é só uma questão de tempo para ele acertar no próximo trabalho.

            ‘O Bom Dinossauro’ não deve faturar muito, mas não vai fracassar. Nos EUA ele estreou uma semana depois de ‘Jogos Vorazes: A Esperança – O Final’, o que acabou prejudicando sua bilheteria. No resto do mundo, ele foi prejudicado pelo fenômeno ‘Star Wars’, que curiosamente, também é da Disney.

Nota: 8,0

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