domingo, 20 de janeiro de 2013

Clube da Luta


Clube da Luta (Fight Club)


Direção: David Fincher

Ano de produção: 1999

Com: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 18 Anos

Nota: 10


É preciso falar de “Clube da Luta”.



            Acho que é perdoável se eu disser que não via “Clube da Luta” com bons olhos, mesmo tendo Edward Norton, que considero dos grandes atores americanos. Também pudera, um título desses sugere um filme de ação cheio de testosterona considerando que ainda temos Brad Pitt como um dos protagonistas.

            Mas, para a minha grande surpresa, venho aqui dizer que “Clube da Luta” é um dos grandes filmes da década de 90, e um dos mais polêmicos também, para quem esperava, como eu, ação e efeitos especiais, como eu, levou um soco no estômago.

            Quando o filme estreou, em outubro de 1999, ele foi acusado de ser maldito, manipulador, fascista, terrorista (e olha que foi lançado antes do 11 de setembro). Sua reputação piorou quando um estudante atirou em todos os presentes da seção do filme em um Shopping de São Paulo. Felizmente, foi provado que não houve nenhuma ligação do crime com o filme. Clube da Luta foi um fracasso de bilheteria, mas não demorou muito para ser reconhecido, com a chegada em DVD, logo ganhou muitos fãs que ditam as frases do seu roteiro eletrizante. Muito, mas muito a frente do seu tempo mesmo, “Clube da Luta” teve uma mísera indicação ao Oscar de 2000 de Melhor Som. Infelizmente, a Academia ainda não está preparada para um trabalho como esses.




            Clube da Luta é contado em primeira pessoa em que o narrador (Edward Norton, cujo nome nunca é revelado durante o filme) é um executivo que trabalha como investigador de seguros, tem um apartamento confortável, mas está entediado com a sua vida tão certinha. Para piorar, ele tem crises de insônia pois ele frequenta grupos de auto-ajuda de viciados em drogas, onde ele conhece a misteriosa e também viciada, Marla (papel de Helena Bonham Carter). Em uma das viagens de avião, o narrador conhece o descolado Tyler (Brad Pitt – incrivelmente ótimo no papel) e não demora muito para os dois se tornarem amigos inseparáveis e logo Tyler revela um grupo secreto para extravasar o estresse do dia-a-dia, o Clube da Luta, em que homens se reúnem para se baterem até o fim, sem regras e sem armas. O plano, na verdade, é bem mais ambicioso, é destruir e provocar terror nas instituições financeiras e voltar às raízes de o porquê somos humanos.




            David Fincher sabe mesmo como deixar a plateia em estado de choque. Quando ele realizou o genial suspense “Seven – os sete crimes capitais”, Fincher conseguiu deixar todos de queixo caído com um novo jeito de vermos desfechos pessimistas, como um filme de serial killer pode, e deve, ser inteligente sem apelar para a violência gratuita, além de transformar Brad Pitt em um ator de verdade e não um modelo que só fazia pose de galã até então. Neste filme aqui, ele não perdeu a mão mesmo. A violência é sim, física, mas é ainda mais psicológica. As frases de Tyler tocam bem à plástica e máscara que é o mundo atual comandado pelas grandes corporações e até hoje são frutos de estudo em faculdades de psicologia e sociologia. Eis algumas frases memoráveis do filme:

            “Trabalhamos em empregos que não gostamos, para comprar um monte de coisas que não precisamos”.

            “Sem dor, se, sacrifício, nós não teríamos nada”.

            “É apenas depois de perder tudo é que somos livres para fazer qualquer coisa”.


            Outra coisa memorável até hoje são as regras para o Clube da Luta, ditas pelos fãs, são elas:

1.    Você não fala sobre o Clube da Luta;
2.    Você não fala sobre o Clube da Luta;
3.    Quando alguém gritar “pára!”, ficar no chão ou desmaiar, a luta acaba;
4.    Somente duas pessoas por luta;
5.    Uma luta de cada vez;
6.    Sem camisa, sem sapatos;
7.    As lutas duram o tempo que for necessário;
8.    Se for a sua primeira noite no clube da luta, você tem que lutar.

Ah, outra coisa clássica em Clube da Luta é o surpreendente final. É um dos desfechos mais impressionantes da história do cinema. O interessante de se ver pela segunda vez é que depois de você saber o que acontece, fica-se analisando se as pistas estavam lá, intactas, feitas pela o espectador pensar um pouco mais pois aquilo que esta em cena pode ou não ser real (alguém se lembrou de “O Sexto Sentido”?).

E vendo Clube da Luta pela segunda vez, só me permito discordar da primeira e segunda regra: considerando que é um filme tão intenso, polêmico e fruto de discussões, é preciso sim, falar de Clube da Luta.




Trailer:


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi


As Aventuras de Pi (The Life of Pi)
Direção: Ang Lee
Ano de produção: 2012
Com: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain
Gênero: Aventura Dramática
Classificação Etária: LIVRE
Nota: 9,0

“As Aventuras de Pi” tem uma grande e comovente história e mostra que o 3D não é apenas uma “modinha”.

            Durante a transmissão do Oscar de 2010 pela TV Globo, o crítico de cinema e ator José Wilker disse que a tecnologia 3D não passava de mania e moda adolescente. O comentário veio porque naquela noite os grandes favoritos a levar o prêmio máximo eram “Avatar” e “Guerra ao Terror”, em que ele dizia que Avatar era feito só pra ganhar dinheiro e que Guerra ao Terror era mais cinema. Mesmo eu achando que o filme da Kathryn Bigelow é de fato melhor que o do James Cameron, por ser mais cinema de autor e, consequentemente, mais realista, o tempo mostrou que, como crítico, Wilker é um ótimo ator.

            A tecnologia 3D veio sim, para ficar, não apenas como impressionista, mas, para aliar as boas ideias com o que está por vir. Infelizmente, não estamos preparados para as novidades. Sempre achamos que a época anterior é melhor e sempre achamos que tudo vai piorar. “Ninguém ia mais ler” quando surgiu o Atari ou quando a TV se popularizou. “Ninguém criaria mais nada” quando a internet surgiu, e a prática provou que tudo isso era pessimismo.

            Tudo bem que de início o 3D era mais para animações, e algumas porcarias hollywoodianas, como “Fúria de Titãs” e “O Último Mestre do Ar”, mas não demorou muito para essa tecnologia ser aliada a um bom roteiro. Foi quando o mestre Martin Scorsese resolveu fazer, finalmente, um filme de classificação livre para sua filha, que foi o ótimo “A Invenção de Hugo Cabret”, que era o favorito a levar o prêmio máximo no Oscar do ano passado mas perdeu para “O Artista”. O próprio James Cameron, diretor de Avatar, que é conhecido pelo seu ego, disse em uma entrevista que o 3D de Scorsese era o mais bem usado até então.

            Mas é impressionante como a criatividade humana não se esgota nunca. Com menos de um ano da estreia de “A Invenção de Hugo Cabret”, temos um uso melhor amarrado e mais profundo da tecnologia 3D: “As aventuras de Pi”, o novo filme de Ang Lee, igualmente de classificação livre e baseado no livro Yann Martel, “A Vida de Pi”.

            Há dois tipos de 3D, aquele que é o mais conhecido, em que a tecnologia é composta da tela para a plateia em que muitas produções fazem a brincadeira de “jogar” objetos no espectador e tem aquela tecnologia em que o 3D vem da tela para dentro, dando uma ideia de maior profundidade. Esse novo filme de Ang Lee faz das duas maneiras, e muito bem.

            Desde a primeira sequência, mostrando algumas aves até o desfecho, o resultado é lindo, fruto de um trabalho pela Rhythm & Hues Studios de captura de performance, a mesma do leão de “As Crônicas de Nárnia”. Esse trabalho de captura quase que real dos movimentos do tigre, por exemplo, lembra muito o trabalho de Andy Serkis em “Planeta dos Macacos – A Origem”.



            “As Aventuras de Pi” conta a história de Piscine Molitor, um garoto indiano que teve esse nome dado em homenagem a uma famosa piscina pública francesa, que, depois de várias situações bizarras durante a infância, ficou conhecido apenas por Pi. Ele vive com seus pais e com seu irmão mais velho, Ravi. O pai tem um zoológico, que, de início é lucrativo, mas devido às crises dos anos 1960, a família resolve sair do país em busca de melhores condições de vida. Decidem, então, ir ao Canadá de navio. Em uma das noites de viagem, porém, Pi acorda no meio de uma forte tempestade e sobrevive a um naufrágio (em uma cena espetacular de ação) e perde toda a sua família, mas ele e alguns animais sobrevivem, que vão morrendo aos poucos, menos o tigre Richard Parker, com quem ele convive por toda a sua jornada.



            Eu vou parar a história por aqui, pois quanto menos se sabe da história, melhor, mas além da técnica impecável e do roteiro eficiente, “As Aventuras de Pi” toca, também, na questão religiosa, pois o protagonista é adepto à 3 religiões, inclusive o hindu-cristão, que não é muito diferente do nosso catolicismo mas com origens hindus.


            O interessante dos trabalhos de Ang Lee, é que ele não tem uma identidade ou uma marca em seus filmes. Nenhuma obra sua se parece com a outra. Se pegarmos os melhores filmes da carreira dele, que são “Razão e Sensibilidade”, “O Tigre e o Dragão” e “O Segredo de Brokeback Mountain”, vemos que ele é um diretor que trilha muito por caminhos diferentes, mas sempre centralizado nas emoções humanas, mesmo nessa superprodução aqui, que emociona, e muito o espectador.



            Eu só tenho uma ressalva a fazer: mesmo sendo um filme de mais de 2 horas, ele simplesmente passa rápido por algumas questões: a parte religiosa, por exemplo, tão explorada no livro e tão filosófica que acompanha o nosso protagonista até o desfecho, simplesmente inexiste na metade final, tornando o desfecho mais fraco, o mesmo vale para os amores de Pi: sua namorada de infância e sua nova esposa também inexistem na história.

            Mas mesmo com essas ressalvas, não há dúvida de que “As Aventuras de Pi” seja um dos filmes mais notáveis de 2012 e desde já, forte concorrente ao Oscar de 2013, mesmo que seja nas categorias técnicas.



Trailer do Filme


Mississipi em Chamas


Mississipi em Chamas (Mississipi Burning)
Direção: Alan Parker
Ano de produção: 1988
Com: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand.
Gênero: Drama
Classificação Etária: 14 Anos
Nota: 10,0

Só a ignorância humana explica o episódio de “Mississipi em Chamas”.

            Recentemente eu assisti a “Histórias Cruzadas”, um drama de 2011, em que uma escritora realiza um livro contando a convivência doméstica do ponto de vista das empregadas. A história se passava em Mississipi, um estado norte-americano no sul do país, no início dos anos 1960, onde na época havia um radical sistema de segregação racial, onde negros e brancos deveriam viver separadamente, inclusive banheiros e restaurantes separados. Quando eu assisti, foi impossível não haver aquele sentimento de indignação. Não há explicação para, em pleno século XX, no Ocidente “civilizado” um absurdo desses.

            Levando agora para o mesmo local e época, com o mesmo problema de segregação racial, porém, muito mais radical, temos a história de “Mississipi em Chamas”. Esse ótimo drama, ultra-violento, que incendiou a sociedade americana no final dos anos 80, criando polêmicas de todos os lados, inclusive sendo acusado de racismo. Dirigido por Alan Parker (de “Coração Satânico”) e protagonizado por Gene Hackman e Willem Dafoe, “Mississipi em Chamas” venceu o Oscar de Fotografia, sendo ainda indicado a Melhor Ator (Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances) e de Melhor Filme, mas perdeu para “Rain Man”.



            Mississipi em Chamas é baseado em uma história real, em que dois agentes do FBI (Hackman & Dafoe) vão ao Estado de Mississipi investigar o desaparecimento de 3 jovens ativistas dos direitos civis, sendo um deles negro. Os principais suspeitos são os integrantes do grupo Ku Klux Klan, que pregava a superioridade branca e o extermínio da raça “preta”. Mesmo sendo, nos dias de hoje, um grupo teoricamente enfraquecido, estima-se que há cerca de 6 mil membros dos KKK (como são conhecidos entre si). O filme acompanha a busca pelos líderes desse grupo e o personagem de Hackman se envolve (mas não tem um caso), com a esposa (Frances) de um delegado e possível suspeito.


            25 anos depois de seu lançamento, “Mississipi em Chamas” prova por que não envelhece com o tempo e por que é um dos trabalhos mais tensos e definitivos dos anos 80, tem cenas clássicas como a cruz pegando fogo (dizem as más línguas que essa cena foi a inspiração de Madonna para seu clipe Like A Prayer, em 1989) e quando o personagem de Willem Dafoe conversa com um negro em um restaurante e todos olham para os dois com cara de desconfiança. E para dar um tom mais realista, durante um discurso para a sociedade branca, um dos líderes da Ku Klux Klan, Clayton Townley, fala da superioridade branca. Para essa cena, o diretor Alan Parker usou trechos reais do grupo KKK.

            O filme gerou muita polêmica na época de lançamento, aqui no Brasil, estreou em Fevereiro de 1989 e foi um sucesso de público e crítica. Os críticos, aliás, acharam, (eu também achei) que esse filme, e não Rain Man é que deveria levar o prêmio de Melhor Filme no Oscar de 1989.

            Mesmo com toda a violência é obrigatório para todos conhecerem esse passado triste da história americana, não é à toa que esse país permitia o racismo por lei, não foi à toa que toda a América Latina também permitia e permite que práticas raciais ocorram sem nada acontecer. Foi um longo caminho de luta pela liberdade de direitos raciais, fundamentalmente ao longo dos anos 60, principalmente naquele que foi um dos anos mais radicais da história: 1968. Martin Luther King e Malcolm X eram as vozes pelos direitos. As mudanças dependem sim, de nós. Entre muitas cenas incômodas ao longo do filme, tem uma em que o personagem de Willem Dafoe diz que todos aqueles que assistem sem fazer nada também são culpados pelas atrocidades. Infelizmente isso está mais presente em nossas vidas do que se imagina. Escândalos de corrupção, impunidade. Também somos culpados. Assim como a sociedade branca de Mississipi, que assistia a tudo até com um sentimento de aprovação. Assim como também, foi o Nazismo da Alemanha. Tudo é um ciclo. Essa é a nossa humanidade.

Trailer do Filme:


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gonzaga - de pai para filho


Gonzaga – De pai para filho

Direção: Breno Silveira

Ano de produção: 2012

Com: Chambinho do Acordeon, Julio Andrade, Nanda Costa, Adélio Lima, Land Vieira, Alison Santos, Giancarlo Di Tommaso, Cecília Dassi.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 14 Anos

Nota: 9,0


“Gonzaga” dá uma nova esperança ao atual cinema nacional

            O Luiz Gonzaga foi uma das personalidades mais emblemáticas, polêmicas e marcantes do país. Sua história é tão surpreendente que não poderia ter sido inventada e era inevitável que ela fosse transportada para o cinema. Mas “Gonzaga – De pai para filho” não é bem uma cine-biografia do rei do baião, como ele era conhecido, mas um forte e intenso conflito de gerações Luiz Gonzaga, o pai, e Gonzaguinha, o filho. A história dos dois e, fundamentalmente, a divergência e a magia do filho para com o pai é sublime. E quanto menos se sabe, mais interessante fica.

            “Gonzaga” se passa, de início, na cidade de Exu, no sertão do Estado do Pernambuco, no ano de 1981, onde Gonzaguinha vai à esta cidade conhecer melhor seu pai, Luiz Gonzaga, para, então, se aproximar dele. Seu pai decide contar sua história de vida para, então, ver se o filho compreende as razões de seu abandono durante a sua vida. Daí somos transportados para o ano de 1929, na mesma cidade de Exu, quando Gonzaga era ainda um adolescente cheio de sonhos e idealista. Ele tem uma paixão proibida (é apaixonado pela filha do coronel), tem uma profunda admiração por Lampião (fato que o filme, infelizmente, não abordou muito) e aprende a tocar sanfona com seu pai, Januário. Após um conflito com o coronel, Gonzaga foge da cidade e vai de pau-de-arara à Fortaleza, para tentar ganhar a vida, mas ele vai parar no exército. Mesmo passando 10 anos por lá, ele cumpre uma promessa que fez ao seu pai e não dá um só tiro, mesmo com os conflitos da época, como a Revolução de 1930, ele sempre dava um jeito de escapar dos campos de batalha. Após a baixa no exército, Gonzaga decide tentar a sorte na grande metrópole brasileira da época, o Rio de Janeiro, que seria a sua “casa”.

            O início é extremamente difícil, já que Gonzaga mal sabia ler e não tinha experiência nenhuma na cidade grande, mas de pouco e pouco ele vai conseguindo conquistar a noite carioca, principalmente quando ele decide tocar as músicas raízes do Pernambuco.

            Em uma das noites, ele freqüenta um certo baile (onde ele se torna cliente) e conhece a doce Odiléia (vivida por Nanda Costa, surpreendentemente, ótima no papel, bem diferente de seu papel fraco na novela “Salve Jorge”), que logo se tornaria sua esposa e mãe de Gonzaguinha. Gonzaga é bom para Odiléia, mas com sua experiência de vida com o mundo do sertão e dos coronéis, ele acha que a mulher é sempre submissa, tornando as brigas de casal freqüentes. Odiléia começa, porém, a apresentar crises de Tuberculose, onde é internada e morre no hospital.

            Nesse meio tempo, Gonzaga se torna um sucesso absoluto e se torna o “Rei do Baião”, vendendo milhões de discos por todo o Brasil e faturando milhões.

            Não contarei a história inteira, obviamente, mas o filme também foca no segundo casamento de Gonzaga, com Helena, e o crescimento de Gonzaguinha, passando pela ausência de seu pai, a rebeldia adolescente, o colégio interno e sua mente ideológica, sobretudo durante o período militar (aliás, Gonzaguinha ficou famoso pelas suas músicas de protesto).

            O filme tem muitas, muitas qualidades. Começando pela escolha do elenco, os atores se parecem física e psicologicamente com as personagens que interpretaram. A direção de arte é competente e é uma bela reconstrução da época. E o diretor Breno Silveira retoma sua maior virtude: a de fazer uma reflexão do conflito de gerações entre pai e filho, que fez muito bem em “À Beira do Caminho” e principalmente no mega-sucesso “Dois Filhos de Francisco”, coisa que ele parece que esqueceu em “Era Uma Vez” – que nem merece ser lembrado.

            Mas principalmente, “Gonzaga – de pai para filho” e um alívio em se tratando de cinema brasileiro. A fase atual do nosso cinema é, no meu conceito, um desastre. De alguns anos para cá, só fazem comédias de muita apelação e de péssimo gosto – é só dar uma olhada nas últimas melhores bilheterias, como “E Aí, Comeu” e “Cilada.com”, se o intuito é competir com as comédias hollywoodianas, o tiro está saindo pela culatra, mas “Gonzaga” volta às raízes e origens do que o nosso cinema é, e sempre foi, de senso crítico, político e corajoso.

            O filme até mereceria um conceito 10, mas os 15 minutos finais, mais parecem que os realizadores acharam que acabou o tempo de projeção e resolveram enxugar demais a história. Quase não dá para se envolver emocionalmente com o que acontece, que, aliás, é o momento mais esperado do filme, mesmo com o belíssimo final, com imagens sublimes e que merecem ficar sempre registradas na estante de qualquer fã.

            Ah, e prepare o lenço, pois o filme comove, sempre com sutilezas, mas sempre animando com as canções de tirar o pé do chão, como “Asa Branca”, que se tornaria o hino do nordeste e “Que Nem Jiló”, e, ouvindo essas músicas novamente e pensando na atual fase desastrosa da música nacional, que tal uma dança de forró para hoje à noite?

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A Saga Crepúsculo – Amanhecer – Parte 2


A Saga Crepúsculo – Amanhecer – Parte 2 (The Twilight Saga – Breaking Dawn – Part 2)

Direção: Bill Condon

Ano de produção: 2012

Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Mackenzie Foy, Michael Sheen, Dakota Fanning.

Gênero: Aventura de Romance

Classificação Etária: 14 Anos

Nota: 6,0


Com um final “mais do mesmo”, o último capítulo da saga Crepúsculo apenas “cumpriu seu papel”

            Foi uma situação engraçada assistir a um filme da saga Crepúsculo em um cinema lotado. Até então, sempre vi todos os filmes em casa, ou em DVD ou na TV. Por se tratar do último episódio, resolvi encarar um cinema cheio de adolescentes berrantes. E a experiência não foi nada agradável. A gritaria e os suspiros por algumas cenas são insuportáveis.

            Essa saga crepúsculo, aliás, é como um início de namoro, em que a pessoa se apaixona a ponto de não achar os reais defeitos que aquilo tem. Como eu já passei dessa fase de se apaixonar por Crepúsculo, devo dizer aqui que a série foi um fenômeno produzido e feito apenas para ser “a moda do momento” (acho difícil alguém se lembrar da saga no futuro).

A série nunca teve aquele atrativo e desde 2008, quando foi lançado o primeiro Crepúsculo, estou tentando entender até hoje esse fenômeno todo. Não que seja de todo mal, a série tem, aliás, muitas qualidades, mas não trouxe nada de novidade que uma série de sucesso, como “O Senhor dos Anéis” ou “O Poderoso Chefão”, fizeram e muito bem. Não tem nada de novo tanto no quesito roteiro como parte técnica, que, aliás, foi um retrocesso nesse ponto, com efeitos especiais bem ultrapassados e que mais se parecem com aqueles feitos nos primórdios, lá na década de 1920.

Embora o primeiro filme, “Crepúsculo”, tivesse sido apenas mediano, ficou uma sensação de “quero mais” para o próximo episódio. “Lua nova”, o segundo episódio, foi um desastre total, um filme completamente desnecessário e que só serviu para as fãs suspirarem por um novo galã que surgira, Taylor Lautner, como o lobo Jacob, que, aliás, vou comprar briga com muita gente em relação a isso, mas Lautner é um péssimo ator, basta ver isso no recente “Sem Saída”. Já “Eclipse” deu a saga novos ares e aquela esperança de que a série finalmente entraria nos eixos. E entrou. “Amanhecer – Parte 1” é, indiscutivelmente, o melhor filme da saga, por ser bem mais maduro do que os anteriores, história melhor amarrada e por ter na direção, o cineasta Bill Condon (de “Dreamgirls – Em busca de um sonho”), que sabe muito bem tratar de atores, embora este tenha sido seu primeiro arrasa-quarteirão.

E agora, em 2012, chegamos à esse final esperado. E a idéia de dividir o último episódio foi a mesma argumentação que os produtores deram quando resolveram dividir “Harry Potter”: disseram que iriam explorar mais os detalhes do livro, que seria mais abrangente e atraente, também. Mas, assim como a história do bruxinho, como aqui, lamento dizer que a idéia era sim, encher lingüiça e, principalmente, o lucro acima de tudo.

Embora a primeira parte tivesse sido muito boa artisticamente e com uma edição mais direta, essa parte 2 foi bem intuitiva para apenas faturar uns milhões.

Primeiro que a idéia de dividir em dois filmes foi uma grande falta de respeito com os fãs, que acompanharam os filmes, os livros, e justamente no final, eles tinham que tirar mais dinheiro do povo, que tanto prestigiou a saga? Dos 115 minutos de projeção dessa parte 2, eu tiraria, sem perder o conteúdo, uns 40 minutos.

Que fizessem um único filme de três horas, não iria trazer prejuízo aos executivos e o pessoal iria do mesmo jeito aos cinemas.

Neste último filme, quase toda a abertura poderia ter sido descartada. É um festival de situações que só serve para segurar os fãs com uma espécie de dejá vu, embora traga uma mudança muito radical na história: Bella Swan, após anos com seu amor proibido, Edward, agora é uma vampira e é mãe de primeira viagem, de uma menina que é uma graça, Rennesmee (Mackenzie Foy). Ao invés de se dedicar a mostrar mais essa relação de mãe e filha ou a Bella, como a nova vampira da vez, a abertura é um festival de piadinhas sem graça, que, aliás, eu não sei o que tem a ver com Crepúsculo, uma tentativa constrangedora de tentar ser ousado (a cena de sexo do casal principal é de chorar) e mais uma vez mostra Jacob quase sem roupas de forma desnecessária.

Mas, há sim, qualidades na história. Começando pela dupla principal. Com o grande sucesso como Bella, Stewart agora se dedica a papéis mais sérios e de maior expressão, como o Road Movie “Na Estrada”, do diretor brasileiro Walter Salles. E, no caso de Pattinson, essa mudança é muito mais visível, já que ele se torna um ator de verdade a cada filme, desde o romance simpático “Água para elefantes” ou grande filme de Cronemberg, “Cosmópolis”. Com essas mudanças na carreira dos dois, eles estão mais, digamos, maduros e menos estereotipados como no início da saga.

Há também uma história interessante, com os Volturi tendo a certeza de que Rennesmee é uma imortal e, portanto, uma ameaça, a guerra está declarada. Os Cullen resolvem, então, recrutar mais vampiros para uma eventual batalha, embora o objetivo seja claro de diálogo, tendo, inclusive, duas índias amazônicas.

Mas o melhor do filme ficou por conta mesmo da grande pegadinha quase no final. O diretor conseguiu atiçar a todos em uma grande cena de ação e ao final do momento, quase dá vontade de pedir ao projetista voltar a cena para se ter certeza de que todas as pistas estavam por lá mesmo (pode parecer confuso, mas não contarei o que acontece).

E o final, apesar de não ser brilhante, não deixa a desejar e registra para sempre esta saga que, é amada por muitos e odiada por outros. É o retrato de um capítulo final que não fez feio mas não acrescentou muita coisa. É como um time que ganha um campeonato jogando feio. A vida imita a arte, ora pois.

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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sombras da Noite


Sombras da Noite (Dark Shadows)

Direção: Tim Burton

Ano de produção: 2012

Com: Johnny Deep, Eva Green, Michelle Pfeiffer, Bella Heathcote, Helena Bonham Carter, Chloe Grace Moretz, Jackie Earle Haley.

Gênero: Comédia de Terror

Classificação Etária: 14 Anos

Nota: 8,5


            Logo no primeiro minuto de “Sombras da Noite”, sem saber nada do filme, já se sabe que se trata de uma obra de Tim Burton, afinal, todos os ingredientes de seus filmes mais clássicos como “Edward – Mãos de Tesoura” e “Os Fantasmas de Divertem” estão lá: personagens excêntricos e um mundo paralelo e bizarro. Felizmente, Burton voltou às suas origens mais esquisitas antes de ele mudar, na minha opinião, para a pior, com um lado mais blockbuster em grandes produções como “Alice” e o “Planeta dos Macacos” de 2001. Talvez porque neste novo filme, “Sombras da Noite”, Tim não tem aquela pressão dos estúdios de realizar um arrasa-quarteirão.

            “Sombras da Noite” é baseado em uma série da TV americana, Dark Shadows,  e se passa, no início, em 1772, quando Barnabas Collins (Deep) é o herdeiro de uma poderosa família que estava com um lucrativo negócio de pesca do então novo mundo, ou seja, nos EUA. Quando ele resolve se casar com a então empregada da mansão, Angelique (Eva Green), Barnabas não tem idéia da tragédia que iria acontecer em sua vida: ele a trai com uma moça muito mais jovem e angelical e Angelique se revela uma bruxa obsessiva, que mata os pais de Barnabas, faz a amante se matar e como se não bastasse, faz com que toda a cidade de Collinsport se revolte contra ele e o transforma em vampiro, prendendo-o em um caixão, onde Barnabas vive por lá por 200 anos.

            Na outra, digamos, parte da história, Barnabas ressurge de uma maneira no mínimo bizarra: o ano é 1972, muita coisa mudou e durante uma construção de um prédio, os operários despertam Barnabas sem querer e ele, com muita sede de sangue humano (afinal foram 200 anos!) mata todos os operários e volta à sua família. Mas esta família está financeiramente quebrada, mais por causa da ambição de Angelique que roubou e desviou tudo e um de seus objetivos novos e, claro, vingança.

            A história, porém, não para por aí: apesar de ter um grande astro como Johnny Deep no elenco, todos os personagens têm seu papel de destaque, principalmente o elenco feminino. A própria Eva Green tem um passado e presente pitoresco, revelando um amor estranho e obsessivo por Barnabas, Bella Heathcote, que faz Josette, a amante-suicida que , por causa de uma brincadeira do diretor, faz a nova babá da casa, Victória, em 1972. Ela que, aliás, tem um passado tão bizarro quanto peculiar: por causa de seu dom de ver gente morta, seus pais a internaram em um hospício onde ela passou a infância e parte da adolescência, até que ela foge e encontra a vaga de babá em um jornal. Michelle Pfeiffer, que estava sumida também está ótima como a patriarca da nova família e está tão boa quanto Deep. Helena Bonham Carter, mesmo eu não gostando muito dela, tenho que admitir que o papel de psiquiatra maluca que caiu bem, embora seja um papel muito secundário. E finalmente, Chloe Grace Moretz, que é uma atriz que eu infalivelmente adoro, faz Carolyn, a filha mimada da família, mas está uma doçura no papel. E não deixem de prestar atenção em Alice Cooper, fazendo papel dele mesmo em um show de rock promovido por Barnabas.

            O filme é cheio de referências e piadas irônicas, as referências ficam com a sociedade da época, desde uma sessão de Amargo Regresso, com Jon Voight, passando pela geração hippie da época (a cena em que Barnabas se encontra com eles é deliciosa, que, infelizmente, não contarei o que acontece) e a ironia fica com o fato que sendo o personagem de Deep um vampiro era natural que as pessoas o temeriam, mas é ele que morre de medo do povo, ele considera a geração nova muito “estranha” e suas frases são tão antiquadas que ninguém fala mais assim, como Angelique assim descreve.

            Embora esta não seja a melhor parceria entre Deep e Burton, este aqui foge, por exemplo, de ser o desastre que foi “Alice”, embora não seja nenhum “Ed Wood”, mas é um, digamos, “Tim Burton da gema”.


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