quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Palpites Oscar 2015_Melhor Ator Coadjuvante


Indicados:


  •  Edward Norton (Birdman)
Não foi apenas com a carreira de Michael Keaton que o roteiro de Birdman brincou, mas com a de Edward Norton também. Na pele de um ator problemático e arrogante, ele se parece muito com seu ego na vida real, segundo histórias de bastidores. E aquele ator que surgiu lá no final dos anos 1990 como uma revelação, andou sumido por um tempo e agora tem a chance de voltar. Suas indicações anteriores foram com ‘As duas faces de um crime’, em 1997 e ‘A outra história americana’, em 1999.





  • Ethan Hawke (Boyhood)
Todo bom diretor de cinema tem um ator preferido, e disso, pode nascer uma grande amizade. E, para Richard Linklater, claramente seu ator preferido é Ethan Hawke. Ele trabalhou na trilogia de ‘Antes do Amanhecer’ com Julie Delpy e empresta um papel sensível, embora nada excepcional como o pai maneirista do protagonista.
É sua segunda indicação, a primeira foi em 2002, por Ator Coadjuvante pelo ‘Dia de Treinamento’.


  • J. K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
Somente um milagre tira o Oscar de J. K. Simmons, que não é apenas o super favorito para levar esse Oscar, como é dele a melhor atuação do ano. Seria muito fácil criar antipatia por um professor carrasco e que humilha um adolescente para lhe arrancar a perfeição, mas não é o caso. E tudo isso sem cair na caricatura do vilão. E mesmo quando a platéia acha que ele pode ter o momento de redenção, a direção e condução do filme podem te enganar.



  • Mark Ruffalo (Foxcatcher)
Mark Ruffalo é um grande ator, mas ele nada tem a acrescentar aqui como uma lenda do esporte, que, diga-se de passagem, está ofuscado no filme. Indicação injusta. Prefira-o como o Incrível Hulk


  •  Robert Duvall (O Juiz)
Se a atuação de Robert Downey Jr. está muito protocolar em ‘O Juiz’, o mesmo não se pode dizer de Robert Duvall, que interpreta o pai do protagonista. Um papel difícil e ao mesmo tempo de redenção e despido de vaidades por se tratar de um ator veterano. Indicação merecida, mas tem poucas chances de ganhar contra o poderoso J. K. Simmons.
 


Quem não deveria estar aí:

Ethan Hawke (Boyhood)
Ethan Hawke apareceu entre os indicados unicamente para preencher espaço e aumentar a credibilidade de Boyhood, mas as chances são mínimas.

Mark Ruffalo (Foxcatcher)
O mesmo raciocínio se aplica a Mark Ruffalo. Para aumentar a credibilidade de Foxcatcher, a Academia o colocou no maior número de indicações possíveis, independentemente do mérito.



Os esquecidos:

Fabrizio Rongione (Dois dias, uma noite)
Como o marido da protagonista, Fabrizio ajuda-a em sua jornada de segurar seu trabalho e convencer seus colegas. Uma atuação contida e sem vaidades, assim como o filme.



Riz Ahmed (O Abutre)
Em meio a grandes como Jake Gyllenhall e Rene Russo, esse grande ator poderia passar despercebido, mas não foi o caso. Como o assistente do protagonista, ele é um funcionário exemplar, o olho que tudo vê e, na maioria dos casos, parece ter mais juízo do que ele.

Quem vai ganhar:

J. K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
J. K. Simmons já ganhou vários prêmios por este grande papel e nada indica que ele possa perder esse Oscar, o que seria uma zebra histórica.
 



Mas quem deveria ganhar era:

O próprio:
J. K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
Se juntarmos as atuações dos demais indicados, ainda não dá a atuação de J. K. Simmons. É daqueles papéis que marcam um ator e o transforma em ícone. E dificilmente o espectador se esquecerá tão cedo dessa performance, que será lembrada por gerações.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cinquenta Tons de Cinza


Cinqüenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

Direção: Sam Taylor-Johnson

Ano de produção: 2014

Com: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Marcia Gay Harden.

Gênero: Romance

Classificação Etária: 16 Anos


Livro erótico vira romance insosso

            Grandes histórias podem nascer quando menos se espera. Stan Lee criou os X-Men, lá nos anos 1960 porque sua esposa havia sugerido. A escritora brasileira Carolina Munhoz começou a escrever ‘A Fada’ não como um livro de fato, mas como um pequeno conto, daí que, com o material que ela tinha nas mãos, viu que poderia prolongar mais sua história.

            Existem casos, porém, em que uma pessoa é tão fã daquilo que consome que cria histórias paralelas baseadas no mesmo universo. São os chamados “fanfictions”. Muita gente faz isso e não há nada de errado. Eu mesmo fazia isso quando era criança. Fiz isso com ‘De Volta para o Futuro’, ‘Forrest Gump’ e ‘ET’. Como não existia computador na época, fiz tudo em um caderno que se perdeu com o passar dos anos.

            Mas, em 2009, uma mulher chamada Erika Leonard James, casada e com 2 filhos adolescentes, fez uma fanfiction de ‘Crepúsculo’. Ela é apaixonada pela saga, mas viu que a história estava inocente demais e que precisava de algo mais adulto. Em teoria, a idéia é a mesma: a moça ingênua se apaixona pelo sujeito “inatingível”, mas que tem costumes peculiares. Mas, desta vez, não temos um vampiro que brilha no sol, nem lobisomens. Desta vez é a moça virgem que se apaixona pelo milionário que tem fetiches pelo controle e sadomasoquismo. E daí que nasceu ‘Cinquenta Tons de Cinza’.

            No começo foi igual ao livro da Carolina Munhoz: era para ser mais uma conto de fã, mas Erika se empolgou tanto escrevendo que não virou apenas um livro, mas uma trilogia. Além de ‘Cinquenta Tons de Cinza’, ainda teve ‘Cinquenta tons mais escuros’ e ‘Cinquenta tons de liberdade’. Se juntarmos os 3 volumes, temos cerca de 1200 páginas e 100 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro.

            E agora Erika Leonard James é simplesmente E. L. James, exatamente para deixar sua “marca” e uma clara referência à J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. O que foi totalmente desnecessário e uma manobra mais populista de vender seu produto: o contexto em que J. K. Rowling começou a escrever Harry Potter era completamente diferente, pois praticamente não havia mulheres escritoras, ainda existia preconceito e ela só usou suas iniciais para ser bem aceita no mercado literário. Agora com Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente, o mercado está mais aberto a todo o tipo de literatura, seja ela infantil, adulta, masculina e feminina e Erika não tinha nada que colocar suas iniciais.

            O pior problema, porém, não é apenas este: ‘Cinquenta Tons de Cinza’ é uma literatura de mau gosto, um grande ultraje e uma escrita muito amadora. Com algumas páginas lidas, fica claro que não teve nenhum cuidado com a linguagem e como todo bom livro que se preze, não permite ao leitor sonhar ou pensar sobre o que está descrito nas páginas.

            Quando ouvi falar em ‘Cinquenta Tons de Cinza’ a primeira vez, em 2012, eu não sabia do real conteúdo, mas logo sabia do incrível fenômeno, pelos comentários e pelo altíssimo público feminino que abraçou a idéia. Até hoje temos muita gente lendo-o em público, no metrô e por aí vai.

            Não estou condenando quem gosta, mas essa idolatria é algo perigoso, pois se temos um sujeito milionário, dominador, segundo ele mesmo, e que sente prazer com a dor feminina, é no mínimo estranho que, com tudo o que o mundo evolui, com os direitos femininos conquistados, a mulher mais independente e cada vez mais forte no mercado de trabalho, se sinta representada na pele da protagonista, Anastasia Steele.

            E não tem jeito: ‘Cinquenta Tons de Cinza’ está aí para ser amado ou odiado. Quem o defende, fala como se fosse a religião. Quem o critica, cita tudo o que foi dito acima.

            Quando ao filme, o problema estava mais na pré-produção do que na realização em si: com um tema tão explosivo como este, era difícil escolher atores para os papéis principais. Para viver Anastasia, o papel foi sugerido a Emma Watson (a Hermione de Harry Potter que, inteligentemente, recusou!) e para Christian Grey, Ryan Gosling foi sugerido.

            Os papéis acabaram ficando com Jamie Dornan como Grey, e Dakota Johnson (filha de Melanie Griffith), que não foi exatamente uma escolha ruim: para um papel tão intenso como este, era muito mais difícil convencer uma estrela hollywoodiana do que um ator desconhecido, que pode, inclusive, dar mais visibilidade aos dois quanto à carreira, mas o risco de ficarem marcados apenas por tais papéis é altíssimo.

            Além disso, a maior dificuldade mesmo foi a escrita do roteiro e a forma de como a história para o cinema seria colocada em tela e se o conteúdo erótico e sádico do livro realmente fosse adaptado.

            Mas toda a polêmica foi pura jogada de marketing: a narrativa erótica foi trocada por um romance insosso, sem química alguma, com uma condução de história que muito se assemelha com Crepúsculo, no amor inatingível, na dúvida da mocinha em ceder ou não, e que provoca mais risadas do que outras reações. As cenas de sexo são raras e mal feitas e que mais se parecem com filmes de baixo orçamento do que com essa produção milionária e, assim como no livro, que foi escrito por uma fã sem critério algum, aqui, o roteiro parece que foi escrito também sem critério e sem respeitar a linguagem cinematográfica.

            Portanto, quem esperava ver um novo ‘Instinto Selvagem’, ‘Corpos Ardentes’, ou qualquer thriller erótico famoso, pode esquecer.

Cinema e literatura são mídias diferentes, e a livre adaptação é bem-vinda. Nem a autora levou a sério e porque raios o roteiro levou?  A dúvida mesmo era se estávamos vendo um conto de fadas ou uma comédia. As altas risadas durante a sessão mais se assemelhavam com a ridicularização do contexto do que a proposta.

            A diretora Sam Taylor-Johnson (esposa de Aaron Taylor-Johnson, que será o Mercúrio em ‘Os Vingadores 2’) pouco pode fazer com o que ela tinha nas mãos e fez um filme protocolar onde a palavra final era dos produtores.

            Ciente do sucesso que o filme faria de qualquer jeito, seu desfecho se dá em qualquer lugar e a platéia fica sem saber o que viu nas 2 horas em que se passaram, lembrando muito o desfecho sem rumo de ‘A Bússola de Ouro’.

E o estúdio já confirmou que a continuação, ‘Cinquenta tons mais escuros’, vai estrear em fevereiro de 2016.

Só espero que não dividam ‘Cinquenta tons de liberdade’, o 3° livro, em dois filmes.

Nota: 0,0

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Trailer:

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dois dias, uma noite


Dois dias, uma noite (Deux Jours, une nuit)

Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne

Ano de produção: 2014

Com: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 12 Anos


Drama independente ganha visibilidade pelo Oscar

            Quando saíram as indicações ao Oscar, no último dia 15 de Janeiro, muitos já previam quais atrizes seriam indicadas, Julianne Moore por ‘Para Sempre Alice’, Rosamund Pike por ‘Garota Exemplar’, Felicity Jones por ‘A Teoria de Tudo’ e Reese Witherspoon por ‘Livre’, e correndo por fora, Jennifer Aniston, por ‘Cake’ e Amy Adams por ‘Grandes Olhos’. Porém, todo mundo, inclusive a própria atriz, foi pego de surpresa: Marion Cotillard apareceu entre as 5 indicadas e Melhor Atriz por seu trabalho em ‘Dois dias, uma noite’.

            A escolha pode ser considerada uma zebra, mas, bastam alguns minutos de exibição do filme para olhar que a escolha é mais do que justa. Aqui, ela se despe das vaidades de Hollywood e não precisa de grandes maquiagens ou transformações para ter sua atuação lembrada (como foi o caso de Reese Witherspoon e Jennifer Aniston). Temos uma atuação feita na raça, em que ela está em quase 100% na tela.

            Linda e ótima atriz, se fossemos listar as 5 ou 3 melhores da geração atual, Marion com certeza estaria no meio. Para o grande público, ela surgiu como o par romântico de Russell Crowe em ‘Um bom ano’, fez alguns filmes em sua terra natal, França, até ganhar reconhecimento com seu merecido Oscar em 2008 por ‘Piaf – Um Hino ao Amor’. De lá para cá, ela vai alternando o cinema independente (como este aqui) e os blockbusters, inclusive como vilã em dois grandes filmes de Christopher Nolan: ‘A Origem’ em 2010 e ‘Batman – O cavaleiro das trevas ressurge’, em 2012.

            Ela é, portanto, o melhor motivo para se assistir ‘Dois dias, uma noite’. Mas não é o único, pois estamos falando de um grande filme dos irmãos Dardenne. É muito original, humano e um grande feito cinematográfico: parece que estamos vendo um grande plano-sequência de 95 minutos, com cortes rápidos e câmera quase documental, acompanhando a trajetória e sofrimento da protagonista. E como se não bastasse, o filme ainda tem ausência de trilha sonora, deixando o espectador prestar atenção mais na história do que em ambientes externos.

            Na história temos Sandra, papel de Marion, uma operária que acabou de ser demitida de onde trabalhava, pois seus colegas votaram pela sua demissão e, em troca, eles ganhariam um bônus sobre seus salários. Porém, ela descobre que seus colegas foram manipulados pelo chefe para tal decisão, principalmente por atraí-los ao dinheiro (1000 euros é uma grande quantia!) e porque Sandra estava afastada do trabalho por uma depressão. Sua única saída, porém, é, durante um final de semana, convencer seus 16 colegas, indo de porta em porta, a votarem contra o bônus para ela não ser demitida.

            ‘Dois dias, uma noite’ foi o representante da Bélgica para Melhor Filme Estrangeiro (que curiosamente, ficou de fora da disputa) e, se não fosse pela Marion e, sobretudo, sua indicação para Melhor Atriz, o filme poderia passar batido pelo público.

            Durante a trajetória de Sandra, existem vários tipos: temos o pai de família que usaria o bônus para o filho, o que se sente culpado pelo que fez, o bajulador da empresa que agride Sandra, e por aí vai. E bem que poderia ter sido indicado a Roteiro Original.

            Os irmãos Dardenne sabem como lidar com a perda em seus filmes: em ‘O Garoto da Bicicleta’, eles retratam uma criança de 7 anos que foi abandonada no orfanato pelo pai, já em ‘A Criança’, temos um casal que revê seus valores após o nascimento do filho.

            O desfecho é muito diferente do padrão Hollywoodiano, acostumado com finais felizes e histórias de superação, algo que pode causar incômodo e rejeição para quem o vê, mas que basta olhar com atenção e ver que tem muito mais a ver com a realidade do que se imagina.

Nota: 10,0

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman)

Direção: Alejandro González Inárritu

Ano de produção: 2014

Com: Michael Keaton, Zack Galifianakis, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Amy Ryan.

Gênero: Comédia Dramática

Classificação Etária: 16 Anos


Um Inárritu “da gema”, apenas com um orçamento maior

            Em 2000, quando o cineasta mexicano Alejandro González apresentou ao mundo seu grande ‘Amores Brutos’, todos viram ali um grande potencial de um diretor autoral, um grande talento em trabalhar com atores, câmera, fotografia e montagem. O filme logo ficou conhecido nos festivais e teve uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (perdendo para ‘O Tigre e o Dragão’). Outra característica importante é a não-linearidade de suas histórias e seus filmes não necessariamente têm uma história só: tanto ‘Amores Brutos’, como ’21 Gramas’, seu filme seguinte e o mais conhecido, ‘Babel’, possuem essa peculiaridade. Ambos têm 3 histórias, que são intercaladas, mas logo se vê o que elas têm em comum.

            O único que fugiu à regra foi ‘Biutiful’, em 2010 e, talvez por isso, seja considerado seu filme menor.

            E agora em 2014, ele volta às origens, seja de câmera e de conteúdo, e, embora o filme seja muito focado no protagonista e seus demônios, também há várias histórias entrelaçadas: Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) é o maior “blockbuster” de Inárritu, mas, todas as suas características estão lá, com a diferença que, agora ele tem um orçamento muito maior, tem um grande elenco a seu dispor e a Academia agora prestou mais atenção nesse moço. Não por acaso, agora esse filme, junto com Boyhood, chegam como favoritos ao Oscar.

            Na história, temos um ator Riggan Thomson (Michael Keaton, no melhor papel de sua carreira) que, no passado, interpretou um herói famoso, chamado Birdman (que sim, tinha aparência e poderes de uma ave) e, após ele recusar a fazer um 4° filme da “franquia”, viu sua carreira cair ladeira abaixo e ser esquecido pela indústria cinematográfica. Porém, ele decide estrelar, dirigir e escrever uma peça de teatro adaptada de um texto consagrado da Broadway. Porém, Riggan precisa lidar com a falta de confiança do público, com o elenco problemático, no caso, os atores Mike (Edward Norton) e Lesley (Naomi Watts), seu agente interesseiro, Brandon (Zack Galifianakis) e sua filha problema, Sam (Emma Stone), que acabara de sair de uma clínica reabilitadora.

            O filme é uma crítica ácida e incômoda à Hollywood, à fama e ao mundo de aparências da indústria do entretenimento e, principalmente, ao esquecimento por parte da mídia a artistas que não estão na moda.

            E uma crítica ao mundo real também. Durante uma das apresentações, Mike diz para a platéia viver mais e parar de olhar a vida pela tela do celular (alguém se lembrou do ‘Clube da Luta’ com o próprio Edward Norton?) e Sam dá uma lição de moral a seu pai sobre seu comportamento considerado “errado”.

            A câmera é quase um protagonista da história: tem plano-seqüências que aparentam não ter sentido nenhum para a trama, mas que são fundamentais para conhecer o psicológico dos personagens, como nas cenas em que Mike e Sam conversam no terraço sobre suas vidas, ou no antagonismo de egos entre Riggan e Mike. A câmera também funciona quase como a mente do espectador e a mente dos personagens, que os acompanha em muitos momentos.

            Isso sem falar no grande fotografia, que muda da água para o vinho sempre que Riggan lida com algum dos seus problemas, seja com sua filha, seu agente, ex-esposa e até quando seu “herói” o perturba que, olha só, o filme até se arrisca como superprodução (ele se imagina voando e salvando a cidade).

            Michael Keaton renasce das cinzas no papel. Após ver a sua carreira ir por água abaixo em filmes menores, ele, nos últimos anos surgia em uma ponta e outra, até aparecer como o vilão de Robocop, de José Padilha e agora tem um papel como protagonista.

            A concorrência pode estar grande na corrida pelo Oscar para Melhor Ator, mas é impossível não associar o personagem Riggan a Michael Keaton da vida real: um ator que ficou famoso no passado ao interpretar um herói famoso, no caso, Batman, nos dois filmes de Tim Burton, mas que viu a carreira ir ladeira abaixo em papéis sem expressão e que agora tem a chance de voltar a brilhar.

            Mas, em ‘Birdman’, não é só a carreira de Michael Keaton que é ressuscitada, mas a de Edward Norton também. Ele surgiu como uma promessa nos anos 1990 em grandes papéis como em ‘Clube da luta’ e ‘A Outra História Americana’, passou um tempo longe, já viveu um super-herói (O Incrível Hulk, em 2008) e agora, 17 anos depois, está de volta às premiações.

            Até Zack Galifianakis, acostumado a comédias estilo “pastelão” aqui tem um papel muito mais interessante do que sua atuação sem graça de ‘Se beber, não case’.

            E Emma Stone, que interpreta Sam, está muito longe das mocinhas em que ela está acostumada a viver: aqui ela é uma adolescente sem juízo e tem um close final em seu rosto daqueles dignos de premiação.

            ‘Birdman’ é uma viagem alucinada na mente de um homem perturbado, mas que está muito longe de ser inconsciente. E a todo o momento parece que estamos em sua mente. E a magia está em saber que não é um filme baseado em quadrinho, livro, nem nada. Tudo veio da cabeça de Alejandro González Inárritu. Pode ter uma referência ou outra, obviamente, mas seu roteiro é 100% original, e o resultado beira à perfeição.

            ‘Birdman’ está com 9 indicações ao Oscar deste ano: Melhor Filme, Direção para Inárritu, Ator para Michael Keaton, Ator Coadjuvante, para Edward Norton, Atriz Coadjuvante, para Emma Stone, Roteiro Original, Fotografia, Edição de Som e Mixagem de Som, mas bem que merecia também de Montagem.

Nota: 10,0

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A Teoria de Tudo


A Teoria de Tudo (The Theory of Everything)

Direção: James Marsh

Ano de produção: 2014

Com: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Charlie Cox, Emily Watson.

Gênero: Drama

Classificação Etária: 12 Anos


Nem os grandes gênios se fazem sozinhos

            Stephen Hawking nasceu no dia 9 de Janeiro de 1942, exatos 300 anos da morte de Galileu Galilei e desde a sua infância já se via um garoto com aptidões para a física, embora não tenha sido um bom aluno nas outras matérias e por não ter uma boa caligrafia, mas, ao terminar o colégio, entrou para a Universidade de Cambridge. Em uma festa, conhece uma jovem chamada Jane Wilde, estudante de literatura e se especializando em poesia medieval espanhola, logo eles vão se conhecendo melhor, até iniciarem um romance.

            Além de estudarem em áreas completamente diferentes, Jane e Stephen também se divergem no que diz à religião: ela é uma moça muito religiosa e devota. Ele é ateu assumido e diz que “uma força divina não deve intervir em estudos astronômicos”. Ele não acredita que possa haver uma força superior em nosso planeta por se tratar apenas de um pequeno corpo celeste em um devasto universo.

            Em 1963, porém, um acidente vai deixando Stephen com uma doença chamada ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), uma doença incurável que leva à perda de movimentos, mas, sem afetar seu cérebro. Nada disso o impede de realizar as pesquisas sobre tempo e espaço e sobre os buracos negros.

            Em 1965, ele e Jane se casam e o casal têm 3 filhos: Robert, Lucy e Timothy. No mundo acadêmico, Stephen leva à Universidade as teorias e equações sobre a existência dos buracos negros e tudo isso chama a atenção de seus superiores, que levam para frente as hipóteses de Stephen.

            Durante uma viagem para a Suíça, em 1985, Stephen pega uma pneumonia, que de tão grave os médicos cogitam à Jane que ela autorize o desligamento dos aparelhos. Ela não aceita e, no lugar disso, o leva de volta à Cambridge onde é realizada uma traqueotomia, que o deixa impedido de falar.

            Isso, porém, não o impede de continuar seu trabalho: ele ganha um computador de inteligência artificial que “fala” tudo o que ele escreve na tela. Esse equipamento ele tem até hoje e é seu principal meio de comunicação, que o ajudou a escreveu seu célebre livro, que vendeu milhões de cópias pelo mundo inteiro e, apesar de ser voltado para o mundo da física, é muito claro para nós, leigos no assunto: ‘Uma breve história do tempo’, lançado em 1988 e usado como fonte de pesquisa até os dias de hoje.

            Na vida pessoal, porém, as coisas não iam nada bem: seu casamento com Jane estava em crise, principalmente após ela iniciar uma amizade e atração por seu colega de igreja, Jonathan, que depois foi fundamental para ajudar na doença de Stephen e na criação dos filhos e, quando nasce Timothy, seu filho mais novo, havia a dúvida de quem era o pai.

            Mas a coisa degringolou de vez quando houve a necessidade da contratação de uma enfermeira. Elaine Mason começou a cuidar de Stephen e ela se mostrava dedicada e competente, porém, que faz com que ele comece a perder o interesse pela esposa.
            Após 30 anos de casados, em 1995, Jane e Stephen se divorciam. Ele se casa com Elaine e ela se casa com Jonathan.

            Com toda essa história, Jane Hawking viu que seu ex-marido não podia ficar conhecido apenas como um grande físico e resolveu contar toda essa trajetória em um Best-seller, ‘A Teoria de Tudo’. Segundo ela mesma, o livro funcionou mais como desabafo do que uma história contada, embora seja muito bem escrito.

            E agora, dessa grande história, nasce um grande filme, ‘A Teoria de Tudo’.

            Houve muita dificuldade na adaptação para o cinema, pois Jane se recusava a fornecer os direitos e principalmente porque o livro é em primeira pessoa. Todos os acontecimentos são do ponto de vista de Jane. O livro é praticamente 100% narrativo e quase não há diálogos.

            Ficou obviamente muita coisa de fora, para quem quer conhecer a história mais a fundo, recomendo que leia o livro, pois tem todos os detalhes dos acontecimentos vistos na tela, mas o roteirista estreante Anthony McCarten consegue condensar uma história inteligível, mesmo para quem não conhecia nada. Ainda é cedo para dizer se ‘A Teoria de Tudo’ será o filme definitivo sobre Stephen Hawking, mas, com certeza, é um grande meio para se saber mais da história.

            O diretor James Marsh (do documentário premiado ‘O Equilibrista’) focou mais a história do casal, na doença, e nos feitos de Stephen. Ficou de fora, por exemplo, a família de Stephen, as muitas viagens por ele realizadas para ser homenageado e sua grande amizade com o também físico, Kip Thorne (que auxiliou Christopher Nolan na concepção do roteiro de ‘Interestelar’).

            Um grande acerto do roteiro para o cinema esteve em tratar a separação do casal de forma imparcial: não se sabe de quem foi a culpa pela crise, se dela, pelo caso com Jonathan, ou dele, pelo caso com sua enfermeira. Considerando que Jane é a autora, o livro, obviamente, o trata como o culpado pela separação.

            Uma coisa, porém, é fato: sem Jane, Stephen não seria nem a metade do gênio que foi. Tudo o que ele construiu foi ao lado dela, que sempre o tratou como uma pessoa normal e implorou para que ele permanecesse vivo. E até hoje não saberemos se o caso dela com Jonathan, na época, foi adultério ou necessidade física.

            Em ‘A Teoria de Tudo’, temos uma grande reconstituição de época, principalmente no início, quando temos os anos 1960 retratados na tela, frutos do Figurino e Direção de Arte primorosos (que injustamente ficaram fora do Oscar), embalados por uma trilha sonora poderosa que é impossível não se apaixonar.

            Mesmo com todos esses trunfos, ‘A Teoria de Tudo’ não seria nada sem um grande elenco: Eddie Redmayne, que interpreta o grande físico faz o papel de sua carreira. Ele se reuniu com o próprio Stephen antes e durante as filmagens, perdeu 15 quilos, estudou suas teorias e sua atuação foi tão convincente que o próprio Hawking disse em uma entrevista que parecia que ele estava se vendo na tela.

            Até o momento, ele é o favorito para levar o Oscar de Melhor Ator pelo papel e, curiosamente, a primeira vez que a vida de Stephen Hawking foi colocada na tela foi em um filme da BBC de 2004, ‘A História de Stephen Hawking’, que foi interpretado por Benedict Cumberbatch, que agora concorre com Eddie como Melhor Ator por ‘O Jogo da Imitação’.

            E Felicity Jones, que interpreta Jane Hawking, também está indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel. Ela ainda não é exatamente uma estrela e, em sua curta carreira, ela tem, como destaque o independente e premiado ‘Loucamente Apaixonados’ e um curto papel em ‘O Espetacular Homem-Aranha 2’, onde ela viveria a Gata Negra em um 3° filme (que, possivelmente, não acontecerá).

            Sua Jane é uma mulher, ao mesmo tempo segura, apaixonada e idealista. E foi um grande acerto colocar uma atriz sem grandes vaidades e que o grande público não a conheça. As chances de ela ganhar o prêmio são mínimas, considerando que temos uma poderosa Julianne Moore no caminho, mas isso pode fazer um bem à sua carreira: talvez esse não seja seu papel definitivo e pode ser a chance dela brilhar. Além do mais, existe a chamada “maldição do Oscar”, na qual, quem ganha a estatueta, nunca mais faz nada de bom no cinema. Felicity tem tudo – e mais um pouco – para se tornar das grandes em Hollywood e de tão boa atriz, era a primeira opção dos produtores para o papel de Jane Hawking.

            A crítica brasileira não abraçou ‘A Teoria de Tudo’ como ele deveria. Muitos o colocam como piegas e manipulador. Tem gente o chamando de “super estimado” e que o reconhecimento seja um exagero.

            ‘A Teoria de Tudo’ une emoção e razão, romance e biografia e em momento algum se comprometeu em ser uma grande biografia, mas em contar uma história sob outro ponto de vista além da física.

            O filme recebeu 5 indicações ao Oscar 2015: Melhor Filme, Ator, para Eddie, Atriz, para Felicity, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. Mas, merecia mais: Figurino e Design de Produção, além de Direção para James Marsh que, se a indicação viesse, esse filme entraria para o chamado “super cinco”, que são aqueles filmes que recebem indicações nas 5 categorias principais: Filme, Direção, Ator, Atriz e Roteiro.

            Mas, quem disse que a Academia é sinônimo de coerência?


Nota: 10,0


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