segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Psicose

Psicose (Psycho)
Direção: Alfred Hitchcock
Ano de produção: 1960
Com: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam
Gênero: Suspense
Classificação Etária: 14 Anos
Nota: 10

            Quando se fala em um filme de suspense de qualidade, o que te vem à cabeça? Imagino que, para muitos, a primeira opção é Psicose. Não existe filme do gênero que capta tão bem o desespero e psicológico humano, com sequências para realmente ficar na mente de todos nós e uma obra-prima de um diretor realmente único. Hitchcock, no melhor momento de sua carreira – ok, um dos dois melhores momentos, fazendo páreo com “Um Corpo Que Cai”. Mas este é, com certeza, seu filme mais célebre, mais lembrado, muito copiado e jamais superado. Psicose inspirou muitos filmes do gênero, como o inteligente suspense “Identidade” e o blockbuster “1408”. Quando um filme muito antigo é lembrado nos dias de hoje, é apreciado sem a gente se atentar a coisas como a produção, a técnica e aos efeitos, é por que a coisa está boa. Psicose teve mais três continuações, todas foram um fracasso total de público e crítica. E ainda teve uma refilmagem muito fajuta, em 1998, dirigida por Gus Van Sant. Aliás, é um mistério até hoje o porquê Sant teve a idéia infeliz em refilmar Psicose. Ele estava em alta com o sucesso comercial e crítico de “Gênio Indomável”, era uma revelação em ascensão e não tinha nada que mexer no clássico. Sant filmou o clássico quadro a quadro, mas o resultado saiu horroroso. Quem pegar uma versão e outra,verá que as cenas são incrivelmente idênticas, exceto uma desnecessária cena de masturbação de Bates, por volta dos 35 minutos de filme. A versão de 1998 ficou muito robótica, teve um péssimo protagonista (Vince Vaughn – que ficaria famoso anos depois como ator de comédia, por exemplo, em “Penetras Bons de Bico” e “Encontro de Casais”) e Gus Van Sant, que é um grande diretor, não tem talento, até o momento, para o suspense. Está previsto para estrear no ano que vem uma biografia de Hitchcock, estrelada por Anthony Hopkins, que fala dos bastidores de Psicose. O papel de Janet Leigh ficou com a estonteante Scarlett Johansson – que no quesito beleza é incontestável, mas está há tempos nos devendo um papel digno de nota.

            E a história... Para quem veio de Marte, conta a história de Marion Crane, vivida pela ótima Janet Leigh, que trabalha como atendente em uma imobiliária. Em uma sexta-feira, seu chefe deixa com ela 40 mil dólares em dinheiro vivo. Ela inventa a história que estava com uma dor de cabeça para sair mais cedo do trabalho e some com o dinheiro. Durante a fuga, ela se depara com seu chefe em um semáforo, que não a reconhece – esta cena, aliás, foi que inspirou Tarantino em “Pulp Fiction – Tempos de Violência” na cena em que Bruce Willis atropela Marcellus Wallace. De tanto dirigir, Marion se cansa e decide passar a noite em um hotel, o Hotel Bates. Lá, é atendida por um jovem, até que educado, Norman Bates (Anthony Perkins), que é tímido, solitário e só vive com sua mãe, ela que, aliás, reprova a nova hóspede, mas Norman não parece se importar muito, até tem uma atração rápida por Marion e a espiona tirando a roupa (foi essa a cena da masturbação, no filme de 1998). Ao tomar banho porém, Marion é assassinada a facadas por uma pessoa que, aparentemente, é a mãe de Bates. Esta cena do assassinato é um dos momentos mais notáveis do cinema, que ainda é lembrada - assusta muito. Assusta tanto que o espectador nem percebe que a faca jamais toca no corpo da atriz. Um close no olho da atriz e a música diminuindo, até ela morrer de fato, são momentos únicos e de gelar a espinha. Após o ocorrido, a irmã de Marion, Lila, percebe o sumiço da irmã e suspeita que Sam, amante de Marion, tem a ver com o desaparecimento. O chefe de Marion aciona um detetive particular para tentar recuperar o dinheiro roubado. 

            Bem, com o receio de que alguém não ter visto o filme, ou se viu, não lembra o que acontece no desfecho, prefiro parar a história por aqui. O filme deixa várias perguntas no ar. A cena final, que não contarei aqui, foi para marcar um personagem para sempre, esta cena é imitada até hoje, inclusive nas novelas.

            Psicose é, também, um delicioso exercício psicológico, mostrando do que a mente humana é capaz de fazer e pensar, de como nós temos nossas máscaras e como podem haver vários alter-egos dentro de nós. Há um livro, de Sidney Sheldon,em que uma mesma mulher tem 3 alter-egos, um deles é uma assassina em série, mas que a justiça se recusa a achar que é um caso de psicologia e sim, de polícia. Ou nos mostra como a mente humana pode reagir depois de um trauma inesquecível.

            Hitchcock não tem medo de ousar, não tem medo do que pode dar errado e não tem medo do que as pessoas podem pensar, e outro ponto positivo é que ele não se prende a explicar demais as coisas. Ás vezes, a dúvida é o que dá o brilho que a sétima arte precisa, isso que, por exemplo, “Jogos Mortais” errou feio em fazer sete(!) filmes para querer explicar todos os acontecimentos, além da violência gratuita.

            Fazer um filme que, passados 62 anos de sua estréia, ainda deixar a platéia em estado de choque, é coisa de gênio, é coisa de Hitchcock.


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Trailer do filme:




Tudo pode dar certo

Tudo pode dar certo (Whatever Works)
Direção: Woody Allen
Ano de produção: 2009
Com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson.
Gênero: Comédia Dramática
Classificação Etária: 12 Anos
Nota: 9,0

Há diretores que são tão únicos no cinema que só de bater o olho em uma cena já se sabe quem está por trás de um determinado filme. E “Tudo pode dar certo”, de Woody Allen é um desses. Mesmo sem saber de antemão quem o dirige, fica claro desde a primeira seqüência que estamos falando de uma obra de Allen. Primeiro pela análise psicológica das personagens. O nosso protagonista fica analisando, sempre de forma negativa, a todos ao seu redor e à sua vida em geral. Outra característica é o uso da metalinguagem, ou seja, em que o autor conversa com o leitor (aqui, neste caso, com o espectador), uma referência ao personagem do próprio Woody em “Annie Hall”, que, aliás, os dois personagens são muito parecidos psicologicamente. Outra coisa foram as situações hilárias com o desfecho das personagens, aquela sensação de que a idéia só poderia ser de um cineasta realmente único que é Woody Allen, além de uma trilha sonora inesquecível e locações de encher os olhos.

Allen filma em sua terra natal, Nova York, algo que não acontecia desde 2004, com o simpático “Melinda e Melinda”, pois, nesse meio tempo, ele se aventurou pela Europa, com “Match Point”, “Sonho de Cassandra” e Scoop – “O grande furo”, em Londres “Vicky Cristina Barcelona, na Espanha; e depois, na França com a obra-prima “Meia-Noite em Paris” e com o recente “Para Roma com Amor”, na Itália”.

“Tudo pode dar certo” conta a história de Boris (Larry David), um velhinho bem ranzinza, que adora analisar psicologicamente as pessoas, tem uma visão pessimista das coisas e, após uma tentativa fracassada de suicídio, trabalha como professor de xadrez para crianças. Mas ele não leva jeito para a coisa, pois, costuma ofender aos pequenos leigos no tabuleiro. Em um dia aparentemente corriqueiro, ao entrar em seu apartamento, Boris se depara com a jovem Melodie (vivida por Evan Rachel Wood, de “Aos Treze” – que é uma graça). A garota implora para morar com Boris, que acaba aceitando, embora de contra a sua vontade. Logo, ela arruma um emprego, mas não é dos mais atraentes para Boris, que é de passeadora de cachorros. Melodie se revela um doce de pessoa, embora não seja tão inteligente. Já Boris é arrogante e ranzinza, mas com um QI elevadíssimo. Não demora muito para ela se apaixonar por ele, os dois têm um relacionamento incomum, chegando a um estranho casamento.

Mais tarde, surge a figura da mãe de Melodie, Marietta, vivida por Patricia Clarkson, que de início é contra o casamento e trata de procurar um relacionamento mais jovem para a filha. Surge também o pai de Melodie, que havia traído Marietta com uma prostituta e veio pedir perdão. Ah, ele também é contra o casamento de sua filha.

            O filme acerta pelo fato de ser simples. Roteiro e personagem corriqueiros. Quem está acostumado apenas com as superproduções hollywoodianas, possivelmente, não irá gostar, por achar que é “muito parado”. Até o elenco é praticamente desconhecido. Larry David, que não é conhecido pelo grande público, já trabalhou com Allen em “A Era do Rádio” e “Contos de Nova York”. Evan Rachel Wood, que fez aquele filme maravilhoso, que foi “Aos Treze”, logo caiu no esquecimento, mas fez um papel memorável em “O Lutador”, na qual faz a filha de Mickey Rourke, agora, esperamos que seja a ressurreição dela, que é uma boa atriz.

            Outro ponto alto do filme é não julgar as personagens. Com um roteiro desses, um diretor qualquer poderia fazer algo como, “um senhor sem humanidade é enfeitiçado por um anjinho da guarda chamado Melodie que o faz enxergar esse sentimento chamado amor”. Felizmente não é assim. Boris é mais parecido com nós do que a gente imagina. Melodie não é 100% boazinha (não explicarei o porquê, isso é revelado no desfecho) e o final é tão inesperado que só poderia ser de Allen. Só mesmo ele poderia cutucar com tanta acidez no psicológico humano. Coisa de gênio. Coisa de Woody Allen.


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Trailer do Filme:







segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Amizade Colorida

Amizade Colorida (Friends With Benefits)
Direção: Will Gluck
Ano de produção: 2011
Com: Mila Kunis, Justin Timberlake, Patricia Clarkson, Jenna Elfman, Woody Harrelson, Emma Stone
Gênero: Comédia Romântica
Classificação Etária: 14 Anos
Nota: 7,5

            É engraçado a evolução das comédias românticas norte-americanas. Desde ‘Harry & Sally” parece uma ordem dos estúdios, que o casal tem que se conhecer por acaso, se estranharem em algum momento até o grand finale, em que todos terminam felizes para sempre. A exceção, neste caso, é o delicioso “(500) dias com ela”, que é uma comédia romântica sem romance. “Amizade Colorida”, infelizmente, não foge desses padrões, apesar de ser um bom filme, mas com algumas ressalvas.

            Esta é a história de dois jovens que acabaram de terminar seus relacionamentos, Jamie (Mila) e Dylan (Timberlake). A ex de Dylan, aliás, foi a personagem da Emma Stone – a Gwen Stacy de “O Espetacular Homem-Aranha”. Jamie é uma recrutadora de Nova York que convence Dylan, que é de Los Angeles, a permancer no emprego na Big Apple. Devido ao acaso, os dois se tornam amigos, até começarem a sentir atração um pelo outro. Eles querem fugir dos relacionamentos, mas começam uma relação baseada apenas em sexo, sem envolvimento emocional das duas partes. Essa relação, porém, acaba aproximando os dois, principalmente quando Dylan leva Jamie para a casa de sua família, em Los Angeles. E claro que eles se apaixonam.

            O filme tem muitas qualidades, começando pela dupla principal, a química entre Mila Kunis (de “Cisne Negro”) e de Justin Timberlake (que está um ator mais interessante a cada filme – principalmente pelo seu personagem excepcional no arrebatador “A Rede Social”) não poderia ter sido melhor. Além da empatia e da graça que esta dupla coloca em cena, principalmente nas cenas em que os dois estão juntos. A escolha das locações em Nova York e Los Angeles também está acertada. Os números de dança na Times Square e a casa de campo de L.A. combinaram com o clima das cenas em questão. Enquanto no número de dança, o clima está mais frenético e movimentado, em L.A. o clima mais ameno embalou o momento em que os dois começam a se apaixonar. Além do mais, a escolha e o momento das piadas mais adultas foi acertada sem ser vulgar, nem sentimental, apesar de, infelizmente, em algum momento, o filme comece a ficar romântico sem comédia. Um aviso desde já aos mais puritanos: apesar de ser uma comédia romântica, o filme tem a temática adulta, a dupla principal fala de sexo sem pudor e sem vergonha.

            Apesar dessas qualidades, o filme tem dois defeitos graves: os 20 minutos finais, que perdem a graciosidade que o filme tinha para se tornar sentimental e, principalmente, a patriotada desnecessária que a personagem de Mila faz ao longo do filme. Ela fala, a todo tempo, da correria e loucura de Nova York, pelas entrelinhas, convence Dylan que a Big Apple é agitada e desenvolvida enquanto L.A. é pacata e atrasada. Quando ele a leva para Los Angeles, por exemplo, é exatamente no feriado de 4 de julho, em que, segundo ela, Nova York fica vazia.

            Mas apesar dessas ressalvas, não dá para contestar que “Amizade Colorida” já é um avanço na carreira do diretor, depois do fraquinho “A Mentira”. Gluck só precisa ser menos devoto, mas ele tem um talento desde já para a graciosidade e o bom gosto na escolha das locações e atores. O caminho é esse.


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Eu Queria Ter a Sua Vida

Eu queria ter a sua vida (The Change Up)
Direção: David Dobkin
Ano de produção: 2011
Com: Jason Bateman, Ryan Reynolds, Leslie Mann, Olivia Wilde
Gênero: Comédia
Classificação Etária: 14 Anos
Nota: 5,0

            Assistir a “Eu queria ter a sua vida” é quase uma sensação de dejá vu, afinal, este tema, que é a troca de corpo para outra pessoa virou um tema tão batido que a magia da coisa ficou desgasta. Do clássico “Quero Ser Grande”, com Tom Hanks, ao seu clone, “De Repente 30”, o “gênero” ficou mais popular com a franquia bem sucedida nas bilheterias nacionais, “Se eu fosse você”, mas, mal-sucedida artisticamente no meu conceito. E “Eu queria ter a sua vida”, não é diferente. Algumas piadas até funcionam, tem o Jason Bateman, que é um bom ator, a Olivia Wilde, daquela série maravilhosa que foi “House”, mas a impressão de “já vi esse filme antes” é inevitável. Principalmente por pegar carona na nova onda das comédias americanas, depois do estrondoso sucesso de “Se beber, não case”. Outro equívoco é o fato de o filme não decidir para qual lado vai: algumas vezes vai para o lado familiar da coisa e, portanto, sentimental, e por outro lado tem piadas vulgares e sem graça, além de uma desnecessária cena de nudez de Leslie Mann.

            “Eu queria ter a sua vida” conta a história de dois amigos, Dave (Jason Bateman) e Mitch (Ryan Reynolds). Dave é um típico homem exemplar: um pai dedicado de 3 crianças (sendo 2 bebês gêmeos), tem uma bela esposa (Leslie Mann), é bem sucedido na carreira de advogado e está próximo de se tornar sócio da empresa em que trabalha. Já Mitch é exatamente o oposto. Praticamente não trabalha, faz uns trabalhos como ator pornô, é mulherengo e só quer curtir a vida. Mas, como os opostos se atraem, os dois se tornaram amigos. Depois de uma bebedeira (daí é que eu digo que pegou o embalo do sucesso de “Se beber, não case”), os dois vão urinar em uma fonte, quando os dois dizem, ao mesmo tempo a frase: “Eu queria ter a sua vida”, daí ocorre um rápido blecaute na cidade e na manhã seguinte, os dois amanhecem de corpos trocados. A partir daí, a confusão está armada. Mitch, que sempre foi largado e folgado, agora é um pai de família, homem dos negócios, e sujeito responsável. Em uma das sequências mais cômicas, em uma reunião na empresa, Mitch não fala coisa com coisa e quase coloca em risco a promoção de Dave para sócio. Já Dave, por sua vez, tem que se acostumar à vida de vagal e não se dá bem em um constrangedor ensaio pornô. Os dois, claro, querem voltar à vida antiga. Voltam para a bendita fonte, mas a mesma foi removida de lugar pela prefeitura. E no meio do caminho surge a secretária dedicada de Dave, Sabrina, vivida por Olivia Wilde, incrivelmente linda, mas com seu talento, que mostrou em House, desperdiçado. Seus momentos são dedicados a piadas de duplo sentido e o diretor ficou mais preocupado em mostrar as suas curvas. Os dois precisam, então, se acostumar com a nova vida...

            O diretor, David Dobkin (de “Penetras – Bons de bico” e “Bater ou Correr em Londres”), e o roteirista Neal H. Moritz (de “Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio”) se perdem com um roteiro, até que simpático, mas sem profundidade. A edição deste filme aqui é um desastre. Muitas histórias são iniciadas e não têm um desfecho. Após a reunião de negócios, por exemplo, não sabemos o que acontece até a promoção de sócio de Dave. O teste pornográfico de Mitch simplesmente some da história. E os efeitos especiais (sim, esta comédia tem efeitos especiais) são de extremo mau gosto. Logo na abertura, quando Dave vai trocar as fraldas dos bebês, as fezes são desnecessárias e mal feitas. Em outra cena com os bebês, quando os mesmos brincam na cozinha com objetos perigosos, como as facas e o liquidificador, foi tão ridícula e constrangedora que deveria ter ficado de fora da montagem final. E ambas as cenas são tão superficiais que qualquer leigo vê que foram obras de computação gráfica.

            Lamento mesmo, que gente legal como Jason Bateman, que há tempos merecia um papel de destaque e Olivia Wilde, procurando um papel para chamar de seu desde o fim de “House” sejam tão desperdiçados aqui. E que o fracasso comercial e crítico de “Eu queria ter a sua vida” sirva de lição para Dobkin.


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Tão Forte e Tão Perto

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud And Incredibly Close)
Direção: Stephen Daldry
Ano de produção: 2011
Com: Thomas Horn, Max Von Sydow, Sandra Bullock, Viola Davis, Tom Hanks
Gênero: Drama
Classificação Etária: LIVRE
Nota: 4,0

            Analisando a carreira de Stephen Daldry, fica difícil entender o porquê de tanta idolatria e tantos prêmios. Seu filme de estreia, o Cult “Billy Elliot” tem um intuito único: o de fazer chorar. E consegue. Revelou para sempre o até então desconhecido Jamie Bell e recebeu 3 indicações ao Oscar de 2001, incluindo Melhor Direção para Daldry. O filme seguinte, “As Horas”, de 2002 foi muito bem sucedido, foi o filme que deu o Oscar de Melhor Atriz para Nicole Kidman e foi elogiado pelo público e crítica, porém, é artificial como uma natureza morta. Ele só faria um filme novamente em 2008, com “O Leitor”, que não foi um sucesso de público, foi considerado como o vilão do Oscar daquele ano pois muitos acharam que ele não merecia estar indicado de Melhor Filme – e não merecia mesmo, mas deu o Oscar de Melhor Atriz para Kate Winslet. O que dizer desse currículo de Daldry? São 3 filmes bem-sucedidos pela Academia, mas analisando cada um deles, fica claro que todo esse reconhecimento é por, digamos, razões sentimentais. Ou a falta de sentimento. “As Horas” e “O Leitor” não conseguem captar a urgência que as histórias poderosas precisavam. Mas, agora, porém, com esse novo filme, “Tão Forte e Tão Perto”, descobrimos uma nova característica de Daldry: ele é extremamente imperialista. Se bem que em “O Leitor” ele já havia dado sinais disso, quando a personagem de Kate Winslet se revela uma nazista, ela é tratada como heroína da história.

            “Tão Forte e tão Perto” recebeu 2 indicações ao Oscar deste ano: Melhor filme e Ator Coadjuvante para Max Von Sydow. Foi dado como azarão da premiação, pois não tinha chance nenhuma de conquistar prêmio nenhum.

            Esta é a história de Oskar e seu pai, vivido por Tom Hanks, que morre nos atentados de 11 de Setembro de 2001. Ele descobre pelos telefonemas e pelas notícias da TV e isso foi uma tragédia para a criança, afinal, ele tinha seu pai como um herói. Um ano depois da tragédia, Oskar decide vasculhar o guarda-roupa de seu pai e, acidentalmente, quebra um vaso azul, que tinha um envelope escrito Black e dentro dele, tinha uma chave misteriosa. Convencido que ela é um enigma deixado pelo pai para que pudesse desvendar, Oskar inicia uma expedição pela cidade de Nova York, em busca de todos os habitantes que tenham o sobrenome Black. Sua busca chega a um senhor, vivido por Max Von Sydow, que, devido a algumas circunstâncias da vida, é mudo, mas só suas expressões e olhar falam por si só.

            Mas por que o filme é ruim? Primeiro pelo impacto imperialista. Apesar de ser uma história de uma criança, fica claro desde o começo que é uma história sobre as perdas do 11 de setembro, ou a data fatídica, como sugere o garoto. O papel de Oskar é insuportável, é uma criança mimada e sem empatia com o público, apesar de todo o esforço da equipe de produção. E quem mais para fazer o papel de um pai exemplar? O sempre certinho Tom Hanks, é claro. Um dia ele já foi o melhor ator de Hollywood, nos tempos de “Forrest Gump” e “Náufrago”, mas anda mais canastrão e cada  filme, como em O Código da Vinci e Anjos e Demônios e seu jeito mais certinho de bom moço foi até satirizado no filme dos Simpsons. E assim como em Billy Elliot, Daldry opta mais uma vez pela comoção. E consegue. Alguns momentos são comoventes de fato e o filme só não é um desastre total por causa de dois personagens: Max Von Sydow, que, este sim, transmite a alma e urgência que a obra precisava. Mesmo não falando, os melhores momentos do longa são exatamente quando ele está em cena. Além de Sandra Bullock, das atrizes mais improváveis a fazer um papel dramático e a levar um Oscar, em 2010, por Um Sonho Possível.

            E apesar dos prêmios e elogios exagerados aos filmes de Stephen Daldry, não vejo futuro nem presente em nenhuma das obras até aqui. Espero estar errado.



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Adaptação

Adaptação (Adaptation)
Direção: Spike Jonze
Ano de produção: 2002
Com: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Judy Greer, Tilda Swinton
Gênero: Comédia Dramática
Classificação Etária: 14 Anos
Nota: 10

O grande problema em se fazer um filme grandioso é a expectativa para o próximo. Principalmente quando este filme é o primeiro da carreira de um cineasta. Quando Spike Jonze realizou, aquele que é, na opinião deste que voz fala, a melhor comédia dos anos 90, “Quero Ser John Malkovick”, confesso que não estava lá com muita expectativa para o próximo filme, achava que o gás de Jonze já havia acabado ou que os elogios exagerados do filme anterior fariam mal ao diretor. Com M. Night Shyamalan foi exatamente assim. Quando ele fez em 1999, aquela obra-prima que foi “O Sexto Sentido”, o sucesso comercial e crítico do filme subiu tanto a cabeça de Shyamalan que nunca mais ele fez um filme digno de nota. Ao contrário, a cada filme ele está pior e cada vez mais piorando. De “Sinais”, a “A dama na água”, ele inclusive já ganhou o prêmio Framboesa de Ouro com o insuportável “O Último Mestre do Ar”.

Mas felizmente, Jonze não se empolgou com o exemplo de Shyamalan. Pois seu filme seguinte, “Adaptação”, é tão arrebatador, cômico e inteligente quanto “Quero Ser John Malkovick”, embora este aqui tenha uma carga dramática mais forte.

“Adaptação” conta a história de um roteirista, Charlie Kaufman, que, por ironia, é o próprio roteirista do filme, aqui vivido por um Nicolas Cage no melhor papel de sua carreira (tá bom, um dos dois melhores, fazendo páreo com “Despedida Em Las Vegas”), que precisa de qualquer jeito adaptar para o cinema o livro “The Orchid Thief”, de Susan Orlean (vivida por Meryl Streep, ótima no papel e o fato de ela ter perdido o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por este papel foi um fato que não engulo até hoje), que conta a história de um fornecedor de plantas que coleciona orquídeas, vivido por Chris Cooper (vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel). Aqui, Charlie está passando por varias crises, como a baixa estima, a frustração sexual e os problemas com sa eu irmão gêmeo, Donald, também vivido por Nicolas Cage.

O que é interessante por aqui é que nem tudo é verdadeiro em Adaptação. Começando pelo próprio irmão gêmeo de Charlie, Donald. Ele nunca existiu. Tudo foi uma brincadeira de Charlie na vida real. No próprio cartaz do filme há a mensagem: escrito por Charlie/Donald Kaufman. Outra brincadeira: Susan nunca teve caso com seu protagonista, como o filme sugere. Aliás, o filme é uma referência, também, à carreira do diretor, Spike Jonze. Ao longo do filme, inclusive na abertura, somos levados ao set de filmagem de Quero Ser John Malkovick, com o próprio Malkovick e John Cusack, o protagonista.

 Mas, apesar de tudo isso, o filme deve sim, ser levado a sério.

 Primeiro porque não é exatamente uma comédia. Há vários momentos de reflexão e tensão. Os 20 minutos finais, momentos sérios, são dignos de um filme de suspense, inclusive com mortes. O filme, também, acompanha o psicológico do nosso protagonista, que nem sempre é cômico. Ele é fissurado por orquídeas, é gamado pela personagem de Judy Greer e a quase todo momento está infeliz, embora seja muito inteligente.

E os atores? São o maior trunfo por aqui. Nicolas Cage, que é um ator pelo qual eu não tenho tanta admiração, faz um papel duplo que se divide entre homem apaixonado, psicologicamente abatido e gênio atrapalhado. Meryl Streep, considerada por muitos como a primeira dama de Hollywood, faz um dos melhores papéis de sua carreira e um dos mais improváveis também, afinal, ela fuma maconha, fala palavrão e é muito falastrona. E Chris Cooper, no melhor personagem de sua carreira, está impagável como um colecionador de plantas e venceu, com méritos o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Foi uma grande pena que, de lá para cá, Spike Jonze, esse grande cineasta e grande diretor de videoclipes, nunca mais fez um grande filme, o que não anula o impacto que Adaptação ainda provoque.


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