quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eu Odeio o Dia dos Namorados

Eu Odeio o dia dos namorados (I Hate Valentine´s Day)
Direção: Nia Vardalos
Ano de produção: 2009
Com: Nia Vardalos, John Corbett, Zoe Kazan.
Gênero: Comédia Romântica
Classificação Etária: 12 Anos
Nota: 7,0


Todos nós, amantes de cinema, ás vezes somos exigentes demais e sedentos por um bom roteiro. Olhamos tanto para esse aspecto que nos esquecemos de outras qualidades que um filme pode ter, ou alguma outra sacada que o marca na história para sempre.

Quando “Eu Odeio o Dia dos Namorados” estreou, em maio de 2009, toda a crítica, mas é TODA mesmo recebeu o filme a pedradas. Disse que era oportunista, ou meloso demais, uma cópia de “Casamento Grego”, além de outros “elogios”. Em um jornal de grande circulação aqui em São Paulo, o crítico disse que “não dá para comparar esse filme medonho a, por exemplo, “Harry & Sally”, de 1989”. Óbvio que não dá para comparar, afinal, para muitos (inclusive para este que vos fala), “Harry & Sally” é a melhor comédia romântica da história, pela linguagem inovadora e por trazer uma nova visão para desfechos pessimistas.

O que muitos deveriam enxergar é que em alguns momentos o cinema precisa as novas gerações conheçam certas tradições e laços que não podem ser quebrados, como aquele filme típico de final de ano ou aquela comédia familiar de “sessão da tarde”. No caso das comédias românticas, isso não é diferente. É preciso que de vez em quando se lance algum filme para se ver a dois, que dá para se falar de relacionamentos e que, no final das contas, o amor sempre prevaleça. É aí que entra “Eu Odeio o dia dos namorados”, uma simpática e despretensiosa comédia romântica que tem tudo o que o gênero precisa. O roteiro já pode ser batido e convencional, mas vale como um programa em casal em uma tarde de domingo.

“Eu Odeio o dia dos namorados” conta a história de Genevieve (Nia Vardalos, que é uma graça), uma florista que adora qualquer coisa relacionada ao dia dos namorados, afinal, é a época em que ela fatura mais, porém, não tem namorado e não acredita em relacionamentos. Para isso, ela segue uma receita que acredita ser infalível: acha que todos nós temos apenas 5 encontros com uma pessoa, depois, cada um vai para o seu lado, isso faz ela se tornar uma conselheira amorosa, porém, aconselha suas amigas a não seguir um caso firme. É uma mistura de Will Smith em “Hitch – Conselheiro Amoroso” & George Clooney em “Amor Sem Escalas”. Daí ela conhece o charmoso Greg (John Corbett), que a chama para sair e usa seu “método” na prática. Porém, depois do 5º encontro, ela decide terminar. Para a surpresa dela, porém, John se apaixona de verdade, fazendo Genevieve se deparar com seu dilema ou até, medo de se relacionar.

A graça deste filme é que tudo é levado de forma descontraída, sem fazer julgamentos e, em momento nenhum, cair no pieguismo. Não deve ser levado a sério como um filme de auto-ajuda (sim, tenho muitos amigos e amigas que levam as comédias românticas americanas para seus devidos romances) e tem momentos interessantes, como a serenata de amor (isso é que eu chamo de resgatar valores) e o karaokê do casal.

Mas, por qual motivo muita gente comparou esse aqui com “Casamento Grego” de 2002? Porque tem o mesmo casal principal do filme de 2002, que, diga-se de passagem, a química dos dois é o maior trunfo por aqui. Nia se diverte como uma garota desencaminhada e ele é o típico retrato de homem apaixonado e indeterminado e até Zoe Kazan, como a tímida e carente Tammy Green rouba a cena em seus momentos mais, digamos sentimentais.

Em se tratando de seu primeiro filme como diretora, até que Nia Vardalos não fez feio. Apesar do excesso de clichês e caras e bocas de sua personagem. Foi como aquele aluno que passa com uma nota 7 na escola, mas que o professor não vai lembrar da cara. Aliás, “Eu Odeio o dia dos namorados” possui essa característica mesmo: não faz feio mas é aquele filme que, no dia seguinte, a gente não se lembra.


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domingo, 8 de julho de 2012

Atração Fatal


Atração Fatal (Fatal Attraction)

Direção: Adrian Lyne

Ano de produção: 1987

Com: Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer.

Gênero: Suspense

Classificação Etária: 16 anos

Nota: 8,5



            Em 1987, o diretor Adrian Lyne chocou a sociedade americana e mundial com um thriller quase erótico que mexeu na ferida do American Way Of Life. Estamos falando de “Atração Fatal”, um filme foi feito para ser pequeno, mas com um boca-a-boca popular, um diretor vindo de um grande sucesso, que foi Flashdance, e um ótimo  elenco, com Michael Douglas e Glenn Close. Ele, que no mesmo ano estrelou o filme que lhe daria seu único Oscar de Melhor Ator, que foi “Wall Street – Poder e Cobiça”, e ela, no melhor momento de sua carreira (tá bom, um dos dois melhores, fazendo páreo ali com “Ligações Perigosas”), o filme foi crescendo, tanto que despertou o interesse dos acadêmicos com 4 indicações ao Globo de Ouro, incluindo de Melhor Filme e 6 Indicações ao Oscar de 1988: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. Mas a verdade é que “Atração Fatal” é um daqueles casos que despertam todos os sentimentos possíveis no espectador: raiva, tensão, libido, mas jamais indiferença.

            “Atração Fatal” é a história de um homem de família chamado Dan (Michael Douglas), um advogado bonito, bem-sucedido, tem uma filha adorável e uma esposa dedicada, vivida por Anne Archer. Ou seja, é o típico de família que retrata o sonho americano. Quando esta esposa e a filha vão passar um final de semana em um sítio da família, Dan se envolve com a provocante Alex (vivida por uma Glenn Close bem diferente do que estamos acostumados a ver) e vivem um fim de semana baseado em sexo, muito sexo, que para Dan, seria apenas “diversão”. Quando a família volta, para Dan tudo voltaria ao normal: sua profissão voltaria a decolar, a amante iria para seu lado e ele voltaria para a esposa. Mas Alex começa a se tornar um inferno. Ela começa a telefonar constantemente para Dan. A toda hora. Dan começa a ignorá-la, mas Alex se torna mais obsessiva a cada dia. Mas o pior ainda estaria por vir: Alex revela que está grávida de Dan. Para ela, é a chance de ficar mais perto dele. Para ele, isso se torna um pesadelo a cada dia. Qual o desfecho de tudo isso é que é o grande mistério.

            Bem, o filme foi um grande sucesso de público e crítica. Serviu muito para fazer a carreira de Michael Douglas e da Glenn Close decolarem e colocou de vez o nome de Adrian Lyne na lista dos grandes diretores, embora isso, na minha opinião, tenha sido um exagero. Afinal, Adrian Lyne nunca mais fez um filme como “Atração Fatal”. Ele se tornou famoso sim, mas por ser um diretor de thrillers eróticos que eram de qualidade duvidosa, como “Invasão de Privacidade”, em 1993, com Demi Moore, e o insuportável “Lolita”, que foi remake do filme de Stanley Kubrick, em 1997. É até perdoável dizer que “Atração Fatal” foi um golpe de sorte na carreira de Lyne. Na verdade, por melhor que este filme seja, é a direção amadorística que torna “Atração Fatal” quase esquecível. Há momentos memoráveis (os 15 minutos finais são para entrar para a história do cinema, pela tensão e a angústia pelo desfecho) e a famosa cena do “coelho cozinhado”, mas ficou aquela sensação de que o diretor poderia ter ido mais longe. Por mais que tenha sido um alerta ao sonho americano, o diretor ficou com um pouco de receio de ousar mais, colocar mais ironia, mais tensão, e até um clima mais sensual. Sim, apesar da maciça propaganda, as cenas de sexo ficam limitadas a apenas ao momento de Dan & Alex juntos. Conforme seus filmes foram passando, Lyne injetou mais e mais sexo (alguém se lembrou de “Invasão de Privacidade”?), tem muito sexo e nudez. Foi classificado, na época do lançamento, para maiores de 18 anos e quando passou na TV Globo, em 1996, a emissora cortou mais da metade do filme. E “Atração Fatal” poderia ter entrado para a galeria dos filmes do gênero da época, como “9 semanas e meia de amor”, do próprio Lyne e “Corpos Ardentes”, de 1984.

            O personagem de Michael Douglas é um ótimo exemplo de homem desesperado, amante inseguro e marido camuflado. Infelizmente, este papel se tornou uma piada de mal gosto em Hollywood. Afinal, ele quase repete este papel em outros thrillers de sucesso, como “Instinto Selvagem”, em 1992 e “Assédio Sexual”, em 1994. E a personagem de Glenn Close se diverte no papel de mulher infeliz e amante vingativa. Não é a toa que ela se tornou um modelo, nos anos seguintes, de uma mulher que não leva desaforo para casa. Ela é lembrada constantemente em filmes que têm o feminismo como pano de fundo. “O Diário de Bridget Jones” e “Como Perder um Homem em 10 Dias” são exemplos de uma personagem que ficou para sempre na história.

            Apesar da direção amadora de Lyne, não há nada, nem mesmo ele, que anule o impacto que “Atração Fatal” ainda provoca.


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quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man)

Direção: Marc Webb

Ano de produção: 2012

Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Sally Field, Martin Sheen, Campbell Scott, Embeth Davidtz.

Gênero: Aventura

Classificação Etária: Livre

Nota: 8,5


Depois de “Homem-Aranha 3” em 2007, a Sony chegaram a cogitar o fim da história do nosso herói aracnídeo. Era o fim mesmo da saga do herói mais famoso da Marvel nos cinemas. A trilogia foi um sucesso arrasador de público e crítica. Seus 3 filmes foram o mais visto dos anos de 2002, 2004 e 2007, respectivamente nos cinemas mundiais. Mas será que, conhecendo a indústria cinematográfica como conhecemos, alguém acreditou mesmo que nunca mais teria um filme novo sobre o homem-aranha? De lá para cá, a indústria logo se mexeu e nos trouxe a conhecer as bem-sucedidas franquias do “Homem de Ferro”, “Capitão América”, “Thor”, “Os Vingadores” e por que não citar os frenéticos caldeirões pop que foram “Kiss Ass – Quebrando Tudo” e “Scott Pilgrim – Contra o mundo”. Mas não demorou muito para finalmente, em 2010, ser anunciado que o homem-aranha estaria de volta aos cinemas do mundo todo. Mas este não seria um “Homem-Aranha 4” ou qualquer picaretagem quando se trata de continuações, mas foi uma reinvenção da saga do herói. Uma história que se passaria ainda antes do primeiro filme. E para a direção, foi escolhido um diretor teoricamente novo, o norte-americano Marc Webb, do sensacional “(500) dias com ela”. E no papel do aranha, o escolhido foi o Andrew Garfield, que ganhou notoriedade depois de seu papel como Eduardo Saverin em “A Rede Social”. Mas e a mocinha? Depois de se perder em filmes sem expressão, Emma Stone teve a chance de sua carreira ao ser escolhida para o papel de Gwen Stacy por aqui. Nenhum desses 3 nomes tinham experiência em filmes arrasa-quarteirão. E ainda tem um elenco de coadjuvantes desconhecido pelo grande público, como Rhys Ifans (de “Os Piratas do Rock”) e Denis Leary (mais conhecido como dublador de “A Era do Gelo”, na versão americana).

Assistindo, porém, “O Espetacular Homem-Aranha”, podemos dizer que “a missão foi cumprida”. Não se pode falar que superou as expectativas, não dá para compará-lo com, por exemplo, o próprio “Homem-Aranha 2”, mas é muuuuuuuuuuuuuito melhor do que “Homem-Aranha 3”. Quem for assistir não ficará decepcionado, embora também não se sentirá provocado ou surpreendido pelo que verá na telona.

Conforme já dito, a história se passa antes do primeiro filme, na verdade, parte do momento em que Richard & Mary Parker (Campbell Scott & Embeth Davidtz), pais de Peter (Andrew Garfield), deixam-no na casa de seus tios, Ben & May Parker (Martin Sheen & Sally Field). Depois, somos levados para, teoricamente, o início do primeiro filme, ou seja, um Peter na escola, sendo jogado para escanteio pelos colegas e as garotas e gamado por uma garota incrivelmente linda, neste caso, a Gwen Stacy (Emma Stone). Mas por alguma razão, Peter não é aquele “nerd bobão” como vimos no filme de 2002, ele é inteligente, engraçado, chama sua garota para sair e corre atrás de seus ideais. Tanto que ele descobre uma maleta que era de seu pai, que o leva ao laboratório da empresa Oscorp, liderado pelo inteligente dr. Curt Connors (Rhys Ifans), que logo se tornam amigos, mas Peter quer mesmo descobrir o que aconteceu com seus pais. Esse doutor tem uma idéia ousada: tratar das deficiências humanas que hoje parecem impossíveis, mas na verdade, logo saberemos que ele luta por seus próprios ideais, já que ele não tem o braço direito. A forma como esse doutor pretende fazer isso é mais ousada ainda: cruzar espécies diferentes. Um dos exemplos mostrados foi o cruzamento de um camundongo com um lagarto. Foi um sucesso, embora o rato tenha ficado com algumas características de um réptil. E o próximo passo de Curt era testar tudo isso em seres humanos. Em um acaso do destino, Parker acaba em uma sala cheia de aranhas para testes de experimento. Depois que ele é picado por várias, Peter vai ganhando características de um aracnídeo, embora ele ainda seja fisicamente um humano. Nesse meio tempo, por causa de um jogo de interesses, o dr. Curt é obrigado a abandonar todos seus projetos e, conseqüentemente, nunca mais voltar a ter o braço direito. Porém, em um golpe de desespero, Curt injeta uma dose de um de seus experimentos usados em lagartos em seu braço deficiente. O resultado foi imediato. O braço do doutor é regenerado, mas logo ganha contornos sobre-humanos, fica um legítimo lagarto gigante. Nasce o vilão lagarto.

Nesse meio tempo, começa a rolar um clima entre Peter & Gwen, porém, o que pode atrapalhar é o pai de Stacy, o chefe da polícia George Stacy (Denis Leary) que quer a todo custo acabar com o aranha, pois o considera um criminoso. Mas como lidar com o seu amor, o alter-ego, a polícia e ainda um super-vilão? Bem vindos aos novos dilemas do nosso herói.

Esse novo homem-aranha acerta muito bem em trocar o amor platônico e idealizado (o que, em minha opinião, irritava no primeiro filme), em um romance descolado e sem firulas. Como já se esperava, a química entre Garfield & Stone impressiona. Não me lembro de um casal que se combinava com tanta harmonia na tela. E que bom que teremos esse casal na continuação (ou vocês achavam que o estúdio ia deixar apenas este único filme?). Se o filme é descolado e pop, a grande figura disso é o Andrew Garfield, que está bem a vontade no papel e queria mesmo um herói para chamar de seu (alguém sentiu falta de Tobey Maguire?). E o que dizer de Emma Stone? Uma atriz em ascensão e que precisava mesmo de um blockbuster em seu currículo, embora já tenha mostrado sua força dramática em “Histórias Cruzadas”. Aqui, é o casamento perfeito entre mocinha em perigo, garota inteligente e namorada apaixonada. Quem não se comover com o primeiro beijo na sacada do prédio de Stacy pode procurar um hospital.

Mas já que estamos falando de um arrasa-quarteirão, o que dizer do das cenas de ação? Do uso do 3D? Não dá para dizer que são espetaculares, como sugere o título, mas digamos, cumpriram seu papel. Não há essa ou aquela cena de luta que provoque o espectador ou que diferencie dos outros filmes do gênero. Tem boas cenas, é verdade, como a batalha dentro do colégio entre o Aranha e o Lagarto, mas, tudo dentro do convencional. Já o uso do 3D está apenas correto. Não está ruim, mas não o destaca pela sensação ou expectativa de vermos finalmente o herói aracnídeo no formato em terceira dimensão. Na verdade, não há seqüências de ação do prólogo, o uso do 3D é quase supérfluo. E neste “Espetacular Homem Aranha” a maior virtude acaba sendo, possivelmente, o maior defeito: se o filme acerta em um tom mais pop ao lidar com o ego e drama da dupla principal, às vezes, isso incomoda os fãs que esperam as cenas de ação. Em alguns momentos, uma luta, por exemplo, é interrompida por alguma piadinha do protagonista, que nem sempre são engraçadas. E isso interrompe a evolução e edição do filme. Algo que em, “Os Vingadores”, por exemplo, era uma vantagem, unir a comédia e efeitos especiais na mesma proporção. Mas, por aqui, não vinga. Espero mesmo que Marc Webb corrija essas falhas para o próximo filme. Se as estatísticas tiverem corretas, o próximo filme será muito melhor do que este. E não foi assim na trilogia anterior? O segundo superar o primeiro? Ficaremos otimistas.


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terça-feira, 3 de julho de 2012

Para Roma Com Amor

Para Roma com amor (To Rome with love)

Direção: Woody Allen

Ano de produção: 2012

Com: Woody Allen, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Ellen Page, Penélope Cruz, Roberto Benigni, Judy Davis, Alison Pill, Greta Gerwig, Ornella Muti, Alessandra Mastronardi.

Gênero: Comédia

Classificação Etária: 14 anos

Nota: 10



Desde que começou a dirigir filmes lá pelos anos 1960, Woody Allen sempre filmou em Nova York, que é sua terra natal, sempre havia certa nostalgia e homenagens àquela cidade que era pano de fundo para seus personagens bizarros e psicológicos. Tudo começou a mudar em 2005, quando ele fez aquele que está entre os melhores filmes de sua carreira, que foi o excepcional “Match Point”, na qual Woody realizou seu filme em Londres. De lá para cá, ele já mudou duas vezes de cidade, em Barcelona, com o excêntrico “Vicky Cristina Barcelona” e com a obra-prima “Meia Noite em Paris”, na cidade-luz no ano passado.

Desta vez, Allen mudou novamente de cidade, escolheu a dedo cuidadosamente tanto o destino quanto as locações. E a escolhida foi Roma, capital da Itália.

“Para Roma com amor” teve a ingrata missão de ser o filme seguinte de Allen depois de ele ter chegado à perfeição com “Meia-noite em Paris” no ano passado. Não houve quem não tivesse ficado encantado, maravilhado e sonhado com esse filme, que é, ao mesmo tempo, lindo e nos faz pensar na vida no quesito “tempo”. Para quem também se encantou com “Meia-noite em Paris” em 2011 eu tenho uma grande notícia: “Para Roma com amor” supera todas as expectativas de quem achava que a criatividade de Woody tinha se esgotado ou que seu ego o tinha superado depois do sucesso comercial e de crítica de seu filme anterior. Este novo filme é muito puxado para o humor, críticas ácidas para algumas manias humanas e como sugere o título, tem muito, muito amor, além da direção de arte formidável.

O filme tem 4 histórias distintas, todas passadas em Roma, e não, as personagens nunca se encontram em momento nenhum da trama.

De início, temos um casal que acaba de chegar na cidade, Milly & Antonio (dois atores italianos vividos por Alessandro Tiberi e pela ótima Alessandra Mastronardi) que discutem uma nova chance de emprego dele e a possibilidade de ficar em Roma. Uma louca coincidência da vida cruza no caminho dele a falastrona garota de programa Anna (uma Penélope Cruz fora do comum), que se passa temporariamente por sua esposa Milly, que por sinal, se perde na metrópole ao tentar chegar no salão de beleza. Outra louca coincidência a faz cruzar com um famoso ator italiano de cinema (fictício), por quem ela fica encantada, apesar de “amar” seu marido.

Depois, somos apresentados a outro casal, Hayley (vivida pela graciosa atriz canadense, Alison Pill) e o charmoso italiano, Michelângelo (vivido por Flavio Parenti), que estão de casamento marcado, quando é chegado o momento deste italiano conhecer os pais da noiva. E quem são eles? Phyllis & Jerry. Ela, vivida pela veterana Judy Davis (que já havia trabalhado com o diretor no delicioso “Maridos e Esposas”, de 1992. E ele é vivido por nada mais, nada menos do que o próprio Woody Allen.

Jerry vive um fracassado produtor musical que reclama o tempo todo de tudo: da cidade, das pessoas e, claro, não gosta muito do genro, principalmente quando descobre que ele ajuda os mais necessitados, que já o taxa de “comunista”. Mas a parte mais cômica de tudo é quando Jerry conhece o pai deste italiano, vivido aqui pelo ator Fabio Armiliato. Ele trabalha em uma empresa funerária (!) e tem, na visão de Jerry, uma voz poderosa. Jerry então tenta convencê-lo a seguir a carreira de cantor, mas há uma surpresa, que não contarei, para esta “brilhante carreira”.

Em outra história, temos um cidadão chamado Leopoldo (vivido por Roberto Benigni – que há tempos nos devia um papel digno de nota). Um sujeito comum, que trabalha em um escritório, tem uma esposa e duas filhas e leva essa vida normal. Mas ele tem um grande problema: adora dar palpite onde não é chamado. Em um belo dia em que ia para mais um dia de trabalho, a casa de Leopoldo é cercado de jornalistas que fazer perguntas bizarras do tipo “Como você se barbeia?” ou “O que você comeu no café da manhã hoje?” e assim, esse sujeito comum se torna essa excêntrica celebridade.

Na história mais, digamos, teen do filme, temos um estudante de Arquitetura, Jack (interpretado por Jesse Eisenberg – o Zuckerberg de “A Rede Social”) que mora com sua namorada, que também estuda arquitetura, Sally (Greta Gerwig) e numa bela tarde conhece um arquiteto formado, John (Alec Baldwin), em que se tornam amigos. Tudo muda um pouco com a chegada da melhor amiga de Sally, Mônica (aqui interpretada por uma Ellen Page bem à vontade). Mas quem é Mônica? É uma atriz que, segundo Sally, é uma garota sensual e que homem nenhum a resiste. Mas será que é verdade? De início ninguém acha (embora eu, Raphael Lopes Brito, tenha me apaixonado por ela desde “Juno”). Mas conforme as conversas vão passando, descobre-se que ela é incrivelmente inteligente, culta, descolada, fala abertamente de tudo com todos e o próprio Jack acaba por se apaixonar por ela. Aliás, o fato de ser descolada e do tipo “melhor amiga que um homem pode ter” lembra muito seu papel de “Juno”. Por todos os momentos desta “odisséia” deste triângulo amoroso, temos os conselhos nada memoráveis do personagem de Alec Baldwin. Segundo ele, Mônica pode não ser lá muito atraente, mas não há como não se encantar pelo seu jeito, nem Jack. Mas alto lá! Monica não é a melhor amiga de Sally? E Jack se apaixona por Monica que é namorado de Sally? Tudo isso daria uma história trágica, não? Mas Woody, felizmente, não se preocupa aqui com discursos morais. Na verdade, ele nunca julga seus personagens. Apenas os apresenta da forma que são. Humanos, como nós.

Depois que eu assisti ao filme eu li algumas críticas (eu nunca leio antes) sobre ele. Para minha surpresa, teve muita rejeição por esta obra. Em um famoso jornal aqui de São Paulo um crítico até disse que Woody Allen se perdeu. Outro disse que Woody perde a razão humana com este novo filme. Discordo de tudo. “Para Roma com amor” está no mesmo patamar das grandes obras-primas de Woody, como “Match Point” e “Crimes e Pecados”, de 1989. Aqui, o diretor soube usar as belas locações de Roma para juntar à todos esses personagens para nos trazer uma visão humana que só poderia sair de suas idéias.

É interessante que seus personagens homens são sempre homens mal-resolvidos, atrapalhados e indecisos. Já as mulheres são maduras, seguras de si e amam mais do que homens. E não é assim na vida real? E as melhores figuras para este paradoxo são os personagens de Jesse Eisenberg & Ellen Page. É quase um “Eduardo e Mônica”, que aliás, é o nome da personagem de Page.

Claro, como todos os filmes de Woody Allen, sempre há alguma referência para seus ídolos. Aqui, o fato de termos 4 histórias simultâneas é uma grande homenagem aos filmes italianos de baixo orçamento dos anos 1960, que Allen assistia na adolescência. Mas também há espaço para a cultura romana? Mas é claro. O Coliseu, as ruínas, as obras de arte, tudo com um tom nostálgico, com aquele gosto de “eu poderia viver isso”. A própria personagem de Ellen Page diz que “não entende como algo grandioso viraram ruínas” ou Jack, na visita ao Coliseu, que elogia os arquitetos de antigamente, de como tudo tenha sido feito há tempos, sem os conhecimentos de Engenharia que se tem hoje, está ainda de pé? Tudo isso com uma Trilha Sonora italiana formidável com a música Amada Mia, Amore Mio, da Orquestra The Starlite aguçar o enredo.

Para dar um tom mais “romano” para a trama, Allen escalou um forte elenco italiano para a história para dar vida junto com o elenco norte-americano consagrado. Eu confesso que não conhecia esses atores, como Alessandra Mastronardi ou Flavio Parenti, mas, quem sabe é a chance de nós aqui na América não conhecermos e reconhecermos o trabalho desta gente talentosa?

Ah, depois de concluído o trabalho neste filme Woody Allen passou umas férias aqui no Rio de Janeiro e não descartou a possibilidade de realizar um filme aqui. É mágico imaginar o que Allen pode reservar para sua obra aqui em solo brasileiro. É esperar para ver. Mas enquanto não vem, fiquemos com “Para Roma Com Amor”.

Que tal uma viagem para Roma para hoje à noite?


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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Contra o Tempo

Contra o tempo (Source Code)

Direção: Duncan Jones

Ano de produção: 2011

Com: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright.

Gênero: Ficção Científica

Classificação Etária: 12 anos

Nota: 8,5



Muitos dos meus amigos vieram falar comigo o porquê, afinal que eu não gosto de filmes de ação. Vou aproveitar o momento para dizer: eu adoro filmes de ação, desde que se tenha uma boa história, bons atores e, fundamentalmente, um roteiro inteligente. Coisa que, infelizmente, a grande maioria não tem. Preocupam-se mais com explosões, um fiapo de roteiro e o intuito único de ganhar muito dinheiro (alguém se lembrou da franquia “Velozes e Furiosos”? São tantos filmes ruins que a gente até se acostuma. Daí surge uma grande idéia, boa história, um ótimo ator à frente e uma história muito inteligente. Estamos falando de “Contra o Tempo”, um filme de Ficção Científica de Ação do mesmo diretor do competente “Lunar”, que estreou em Agosto de 2011 e é um prato cheio para quem curte uma ficção quebra-cabeça e cheia de reviravoltas.

Na sinopse, o soldado Colter Stevens (Gyllenhaal), que acorda no corpo de um viajante desconhecido, é testemunha de uma explosão em um trem. Depois de 8 minutos, descobre-se que se passava de um ataque terrorista, e que este era só o primeiro ato do grupo. Este soldado recebe a missão secreta de voltar no tempo para descobrir onde a bomba está e quem está por trás deste ataque. Logo, ele volta, a todo momento, 8 minutos no tempo para descobrir tudo. A cada volta no tempo, Stevens descobre uma situação nova e por que não, bizarra. A lista de suspeitos vai se afunilando até que se descubra quem está por trás de tudo. O maior laço, digamos, humano desta missão são as conversas com uma passageira desconhecida, a simpática Christina (Monaghan), com quem acaba se apaixonando.

O interessante do filme são as intensas reviravoltas que o roteiro dá, sem firulas e sem confundir o espectador com pistas falsas. O papel não poderia ser para outro ator se não o Jake Gyllenhaal, porque ele não tem um grande perfil de super-herói, é uma pessoa comum, e é isso que dá um perfil mais próximo ao espectador. A química entre ele e Monaghan também está perfeita, ela que, aliás, também teve um papel interessante por aqui, como passageira em perigo e mocinha prestativa. Pode ser um romance sim, pode ser uma história de amor sim, pode ser o mocinho ajudando a mocinha em perigo sim, mas não cai naqueles clichês estadunidenses de cair no pieguismo no desfecho. É um relacionamento maduro e sem firulas.

As cenas de ação também são outro ponto alto. O diretor Duncan Jones corrigiu todas as falhas de seu filme anterior, em que tínhamos uma ficção lenta e longa, com uma obra direta e simples para qualquer leigo. Até a curta duração (apenas 90 minutos) é um ponto positivo. O diretor viu que se estendesse mais, comprometeria totalmente a edição e evolução da trama. e pode ter certeza que você não vai ficar entediado ao saber que a cada 8 minutos, o filme volta no tempo.

Apesar de ser um filme frenético, tenho duas ressalvas: o final um pouco decepcionante e a atuação de Vera Farmiga, que está uma completa robótica no papel de uma comandante.

Mas apesar desta pequena ressalva, não vejo outro filme de ação inteligente recente para um programa de fim de semana como “Contra o Tempo”. E com muita pipoca.


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sábado, 9 de junho de 2012

Melancolia (Melancholia)


Direção: Lars Von Trier



Com: Kristen Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgard, Kiefer Sutherland


Ano de produção: 2011

Gênero: Drama

Classificação Etária: 16 anos

Nota: 9


Comentário:

Na coletiva de imprensa do Festival de Cannes do ano passado, em meio ao bombardeio de perguntas ao diretor Lars Von Trier, chegaram a citar o nazismo de Hitler. Ele fez uma declaração polêmica que "entendia Hitler". Essa declaração foi tão infeliz, que a própria Kristen Dunst, protagonista deste filme, o repudiou dizendo que "ninguém pode sair por aí brincando falando que é nazista". Mas isso custou caro a Trier, pois "Melancolia" não foi sequer indicado à Palma de Ouro daquele festival.
Bem, como a nossa função aqui é questionar a obra, o produto e não o pessoal de cada um, vamos falar, então sobre esse filme, Melancolia, que é, na minha opinião, um dos melhores filmes do ano passado, filosófico, profundo, reflexivo e com atores maravilhosos.
Melancolia é um drama dividido em duas partes. A primeira, com o título de Justine, que é o personagem da Kristen Dunst (no melhor papel de sua carreira). Aqui, ela se apresenta, de início, feliz. O filme já começa com um casamento, entre ela e Michael (Alexander Skarsgard) realizado na casa de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu cunhado, John (Kiefer Sutherland). Conforme as coisas vão acontecendo, o psicológico de Justine vai mudando, de noiva feliz ela se transforma em uma mulher indecisa, evasiva, infeliz e angustiada. A principal personagem desta mudança de comportamento é sua irmã, Claire, que a faz enxergar o mundo ao seu redor. Depois de uma rápida transa de Justine com seu colega, Tim, seu marido descobre e, obviamente, se separa dela. E, de presente, ela ainda perde seu emprego.
Na segunda parte, com o título de Claire (a irmã de Justine) vemos, com maior profundidade, o processo de união entre o planeta Terra e o planeta Melancolia. Nesta segunda parte, o interessante são os diálogos. Há discussões sobre a vida neste planeta novo (veja bem, não estamos falando de um filme de Ficção Científica) e a decadência de Justine.
O filme tem inúmeras qualidades e, na minha opinião, apenas um defeito: a loooooonga duração. Os 140 minutos caberiam perfeitamente em 100 minutos, por exemplo. Mas, falando das qualidades, temos Justine e Claire, duas ótimas personagens com diálogos de roer a unha. Justine, aliás, é uma referência à Justine do Marquês de Sade. A direção de Trier beira ao sublime. Logo nos créditos de abertura, temos a personagem de Kristen Dunst olhando para a tela e os objetos se movendo em uma câmera lentíssima. A sequencia final, que não contarei aqui, poderia ser um porre de efeitos especiais. Mas Trier transforma isso em algo, digamos, poético. Aliás, uma qualidade dos filmes de Lars Von Trier é a ausência e crítica ao totalitarismo. Sendo assim, espero que a referência infeliz ao regime nazista tenha sido apenas uma brincadeira.
Por este filme, Kristen Dunst venceu, e com méritos, o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. Já este filme foi esnobado na Palma de Ouro do mesmo festival. O prêmio máximo ficou com o anêmico "A árvore da vida". Eu não preciso nem dizer de qual filme gostei mais.


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